Barrados no Braille


Bem-te-vis



Escrever. Escrever devagar. Pensar em cada palavra, pesá-la no côncavo invisível do pensamento, deixa-la tombar, ao lado da sua vizinha, irmanadas na diferença, reféns para sempre, presas irremediáveis da esteira do sentido.

Escrever pelo puro prazer de escrever. Pintar o quadro da mulher sentada, sozinha no seu quarto, a aproveitar as últimas tonalidades da tarde de junho, a lembrança da chuva a tingir levemente o tempo, pássaros a  trinar contra o fremir do trânsito, na avenida principal.

Escrever, palavra sobre palavra, a dúvida, o silêncio, a saudade, a mágoa, a cascata dos bits na tela, escrever desse modo em que a música das teclas entoa o canto invulgar desse agora, sonata cibernética, contra o canto cristalino dos bem-te-vis.

Afagar em verdana, o alforje gasto de solidão, espreitar para dentro, recolher ínfimas quinquilharias. Um velho cheiro dos jardins da infância, o tom escarlate de cólera, na voz da minha mãe, enredado à lembrança do meu pai, em modo de quase prece, a tanger o gado para dentro do curral entardecido.

Lembranças desbotadas pelo tempo, vívidas agora, na tinta da escrita, não sendo senão lembranças, ordenadas em palavras.

Ah se eu pudesse. Se eu pudesse trazer para cá o aboio, o cheiro da chuva, os olhos da minha mãe, escrutinando o cume da serra. Mas só escuto os bem-te-vis, na tarde de junho. Só escuto os bem-te-vis. Os bem-te-vis, percuto de novo a pequena palavra, no teclado multimídia, a ver se ela esvoaça, transborda, transporta-se.



Escrito por Joana às 16h27
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Cronica para meu Pai



Em homenagem ao seu aniversário (In Memoria)

São dezenove. Dezenove anos passados desde que você se foi. Dezenove anos, ora destendidos, feito um enorme bicho adormecido, dezenove anos empilhados uns sobre os outros, formando ângulos estranhos, no apertado túnel da memória.

Hoje penso nesses anos como se fossem uma longa cauda de estrada, serpenteada pela tropelia dos fatos da minha vida que não consigo reter. Uma longa cauda de estrada que percorri sozinha, sonhando com o som da sua voz, espreitando para algum desvão de tempo, surpreendida pela lembrança fresca do seu riso amanhecido, cristalino como a água do riacho.

Se o vento parasse de zunir nas frestas da minha vidraça, se a poeira aquietada germinasse o caminho por onde pisar, se a rua por milagre se aquietasse, se somente o pássaro dessa manhã pudesse cantar, eu soltaria meus cabelos, lavaria minhas mãos das obrigações de agora, e correria.

Correria por essa longa estrada de dezenove anos passados, os pés sapientes do solo de folhas e poeira amalgamadas, correria contra o sol de abril, na manhã silenciosa, saltaria para aquele 1 de maio de 1993, retendo o fôlego, retendo os batimentos do meu coração, espreitando para a casa, para o quintal, o coqueiro levemente curvado.

Encontraria você, o velho corpo levemente encostado à árvore, fitando a manhã, recolhendo nas mãos trêmulas, o calor do sol, revivendo o antigo gesto de embrulhar cigarros, sorriso fugaz por haver se esquecido de como picar o fumo, o velho canivete largado a esmo em algum canto da casa.

Meu coração cantaria de alegria, mas eu não perturbaria aquela manhã, feita somente para nós dois, aquela manhã, feita das contas de tantas outras manhãs encontradas,  o rosário completo da sua vida, 73 anos vividos, eu dentro deles, iluminada por aquela cumplicidade que sempre nos marcou, antiga, universal, como o brilho do sol a aquecer a terra.

Falaríamos baixo, minha voz temperada pelo grave da sua voz arrastada, sem pensarmos no amargo da sua solidão, sem pensarmos na estrada comprida que eu palmilharia, sem pensarm no décimo quinto dia do mês de maio, sombrio, seu corpo debilmente derreado sob o sofá da morte.

Como em tantas outras vezes, seus dedos trêmulos desenredariam meus cabelos e  eu saberia, da doçura dessa lembrança viva, me acompanhando na viagem de regresso, até o agora.

 



Escrito por Joana às 12h06
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Se Você me Ouvisse




Minha homenagem a Mayara Maia, uma longa carta, escrita com poucas palavras, algumas em cada um desses dias em que esteve em coma. Uma carta para que seus familiares guardem no coração, já que o coração da querida Mayara parou de bater.
Se você me ouvisse, eu cantaria essa música esquisita que trago aqui dentro, meio canção, meio poema, meio conversa de quarto fechado, luzes apagadas, longo anoitecer.
Eu falaria como se rezasse, e faria pausa para que os cachorros da casa ao lado dissessem da vida, das suas urgências, do seu dormitar.
Se você me visse, eu, ao modo de um longo lençol de infância, daqueles trazidos do baú da nossa mãe,  desdobraria o meu silêncio sobre a cidade, para que os relógios se aquietassem, a brisa do mar segurasse o ir e vir das ondas,os pássaros voassem para seus ninhos, a azáfama do dia se fizesse anoitecer, com inúmeras estrelas no céu, a iluminar o topo das árvores. 
E se você quisesse voltar pra casa, eu correria a despistar  o tempo-espaço real, inventaria uma rua toda calma,  orlada de flores,uma longa rua toda feita para o seu caminhar,uma longa rua toda lavada da nossa saudade.
Mas eu sinto, os relógios já não batem certo,as sílabas da minha canção se desconsertam,e nos seus olhos fechados, habita o mistério.
Não se deixe levar por esse sonho antigo, escute o mar, respire o cheiro da manhã de janeiro, venha pra casa!



Escrito por Joana às 12h44
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Leituras de Férias



Quem terá dito que a leitura de um livro sempre nos permitirá trazer à tona nossas próprias experiências?

Hoje pensei sobre isso enquanto acabava a leitura de “Um Certo Verão na Sicília”, um dos romances que separei para essas férias, por indicaçãoda querida amiga Edith Suli.

E pensei mais. Pensei em como é bom trazer para fora recordações, sentimentos, sensações, lembranças, molhos de lembranças,para experimentá-las sob nova luz, a luz da poética literária, ainda que muitas vezes os cenários sejam de penumbra, de neblina madrugadeira, ou de sol a nascer, no cume de uma  montanha gelada.

O romance de Marlena de Blasi, tecido com extrema delicadeza, sustentado pela poderosa beleza dos lugares escolhidos, regado à vinho e receitas ao mesmo tempo exóticas e saborosas, funcionou pra mim como uma espécie de serão, uma suave conversa à beira do fogo,um ameno falar sobre amor, , morte, luta, conflito, desigualdade, tudo posto, como num coquetel maturado na incongruência, misturando vida, em todas as suas essências.

Destaquei uma frase do livro de Marlena de Blasi, uma simples frase, talvez nem tão bem urdida assim, mas que me fez sentir vontade de largar o livro, fazer uma marcação, abstrair=me dos ruídos da rua, tentar revolver, no solo onde devo tê-los plantado, alguns dos meus sonhos.

Ela escreveu: Talvez os sonhos sejam tudo o que a gente possui. Tentar vivê-los talvez seja jogá-los contra

as pedras". Será que você gostará desta frase tanto quanto eu gostei? Atirar sonhos contra aspedras, pequenas e grandes pedras. As da inércia, as rugosas pedras do medo,as graníticas pedras da indiferença,os penhascos, sobretudo os penhascos, ali onde os sonhos ficam soterrados, extraviados, camuflados por insondáveis arbustos de esquecimento...   

No romance de Marlena, cada sonho atirado sobre as pedras, move-se, rola, arrasta-se, corre, até encontrar o seu lugar. Uma fórmula singular, para o velho exercício de contar histórias e trazer para as nossas próprias experiências,a poética sussurrada, sugerida,insinuada, como uma espécie de segredo, à beira do fogo, desvanecido logo ao amanhecer.

Um romance, com começo meio e fim. Uma boa história para se ler nas férias, para alimentar conversas amenas, com amigas queridas como Edith Suli, Glaucia Lima,

Valéria Rezende...

 

: Um Certo Verão na Sicília

Marlena de Blasi

 

Editora Objetiva, 2009.  

 



Escrito por Joana às 17h00
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Beto Menezes, esse Escultor de coisa nenhuma e o seu livro Despoemas



Para falar algo sobre essa obra de Beto Menezes, posso dizer que tomei à letra o que escrevera em sua apresentação, o poeta Sérgio de Castro Pinto, quando afirmou: : "que o leitor, então, analise os textos de Beto Menezes, e, quem sabe, a partir deles, engendre outros textos. A literatura,certamente, agradecerá.

É pois como leitora que venho aqui deixar minhas impressões nessa tecedura em que se entrelaçam, em que se encontram e desencontram-se, prosa e poesia, ou dito de outro modo, nesse lugar onde acontece despoetização,repoetização, numa prosa que ora corta, escalpela, paradepois suavizar-se em metáforas inusitadas, originais.

Pensei pois, em minha leitura emocionada, em um menino, na sua invenção de infância, a brincar no quintal do seu avô, a espatifar poemas, desventrar suas imagens, redemoinho de cores, cheiros, num galope febril,terá sido a Vera, no meio do tufão, a rir-se obscena, daquele "anjo caído, filho pródigo de volta pros seus"?
O prosador, aprendiz da fala da lua, sendo aqui o olho maior do poeta Antonio Mariano.

Mas de repente a prosa cresce em catalogações  das suas porções de inutilidade, raro enxamear de coisa nenhuma, à cata da "perdição bendita e cheia de brilho", emprestando ao pequeno poema de Abraão Costa Andrade, novos caminhos, bifurcações, uma estrada inteira para a contemplação.

Hiperatividade do olhar, que se debruça sobre a trilha engatinhante da cachoeira, um olhar que não se assombra, ao ver o baque, a exuberante queda d'água para dentro da melancolia. O banho de séculos, dos meninos, dos avôs, que a água é caspa caindo da pele da terra. E vão mirar, menino, avô e bisavô, para dentro do poema de Bruno Galdêncio, o tênue engordar das sombras.

Mas é somente um ínfimo instante, um milésimo de segundo, para preciptarem-se, em ruidosa correria, bisavôs e meninos, em busca da nascente, sabores a disputarem um lugar, na língua afiada, o coco queimado, o doce da poesia bilaqueana, o gosto amargo da bic estourada.  Tem de que? encarcerado, sendo ele mesmo o último enigma da fonte, vibrando de poesia-prosa, à espreita.

Tropelia de sonhos sem sono, a lutarem contra o enigma dos enigmas, indiferentes não, rebelados contra o que diz o poema de Ronaldo Monte: ": Fonte Ronaldo Monte Teus sonhos não são enigmas. Olha-os com calma: Eles são a fonte dos enigmas. Tua fonte. Não busques, portanto, o sentido dos teus sonhos. Dorme, apenas. E deixa que desfilem teu mistério no chão do sono."

Seu acordar é pleno, maturando à luz da manhã, o sonho primaveril, o desaninhar de flores, o desassossego dos pássaros, fruto a se tecer doce dentro do seu azedo. cochichando-lhe a prosa, que "a árvore de folhas novas rasga a pele da novidade, para exibir o cheiro da sua sexualidade récem-descoberta.
Menino,sendo a vividez do verso de Leo Barbosa,
"E enquanto gira em busca de um braço que o segure, desde o último suicídio, atentando salvação ou consolo," ...pensa "que aguentaria a espera se, ao invés de ter matéria de cristal, esse sonho fosse de mais calibrosa densidade e resistência".

E com a profusão das palavras, deseja um sonho perverso, de pouco silêncio, e eis que chega a tanajura, de novo o sabor infantil a fritar sob a acha incandescente da sua prosa.

Uma bela obra. Folhas eternamente abertas, para enclausurar dores, beliscões e afagos, silêncios tisnados de inquietude, grandes e alegres baforadas de brisa, perdidas entre as engrenagens mordentes de palavra nenhuma.

Beto, esse escultor de coisa nenhuma, sempre a nos assombrar, a nos encantar, a nos subjugar, leitores irremediavelmente perdidos, a crescermos, feito pedras despejadas no bojo dessa sua fonte de enigmas.



Escrito por Joana às 11h16
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O Sol Vermelho Está Dentro



Eis pois o meu primeiro post escrito a essa hora da manhã. Vigiar o sono que decidiu sair de casa, sem dinheiro no bolso, sem qualquer documento, nem bilhete de volta. Partejar as horas, espremer do silêncio a novidade de palavra alguma, enviar pensamentos a espreitarem um naco de rua, onde habita a calma, para vê-los regressar, trementes do medo do que acontece e não se sabe, noite coberta pelo lixo tisnado de sangue, ninho de ínfimas bactérias a premeditarem suas minimalistas formas de morte.

E pensamentos outros vão buscar, da cozinha da infância, o copo-de-leite abrindo-se para a madrugada, a bafejar a beirada do muro com seu perfume doce.E do romance, me vem o seio da mãe, dentes úmidos de infância a sugar-lhe o néctar da vida. E de outro romance, outro seio exangue, ela tão jovem ainda, desfalcada pela miséria, a alimemntar a fome de um velho quase à morte, no barracão desmantelado.

Não é de medo esse tremor das minhas mãos, nem esse tênue suor frio. É de certeza. Certeza de que o sono se perdeu dentro de um mundo ensombrado, à procura de uma cova qualquer onde mergulhar, enquanto em mim, é toda vermelha a fogueira das lágrimas que não choro.



Escrito por Joana às 04h47
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"A Alma do Osso"



E osso terá alma, perguntarão vocês. E eu lhes digo que vi “A alma do Osso”, lavada por uma solidão esculpida no útero da serra, estriada por fosforescências dos finais de tarde, acompanhada pelas sombras, invenção do fogo, nas achas de lenha, nas paredes da loca,nas garrafas de plástico cheias da água da chuva.

 

Somente ontem pude ir ao #Cineport, acompanhada pelas minhas duas amigas, Virgínia e Emília. Guiadas pela câmerade Cao Guimarães, empreendemos às cegas, aquela viagem até um povoado mineiro, ao encontro de um velho e dos seus 41 anos de vida abraçado à solidão, dentro de uma caverna.

 

Há duas belezas ali. A beleza do trabalho empreendido pelo cineasta, a delicadeza e o respeito com que fez uso da sua câmera, a profundidade com que tocou na alma daquele velho, cingido à sua montanha, vivendo na plenitude, cada um daqueles pequenos ou grandes gestos que compuseram a sinfonia dos seus 41 anos de solidão, feita do “demais” que habita dentro da gente, esse “demais” que só a cada um pertence, como a sua colcha de mistério, de #insondabilidade, palavra que deixo aqui, pairando como um pássaro obscuro, nesse final de parágrafo..

 

A segunda beleza é a própria poética do fato improvável: Um velho, uma caverna, os dias, a montanha, os pássaros, o fogo, a chuva, o amanhecer, palavras de uma longa crônica aberta, escritura invulgar de unhas endurecidas, rastros feitos da dureza da planta dos pés, pensamentos travestidos em imagens microscópicas, feito pássaros de um país exótico, e a arte, arte mesma do cantar do velho, violão e canção, duas incongruências entrelaçadas num ramalhete sonoro,a desafiar o vento, o silêncio da noite, a dureza da pedra.

 

Ficamos ali, agachadas junto daquele velho, escutando suas histórias de vivos e mortos, de fogo do purgatório. Vimos o saco onde ele guardava seus dólares, as latas para o feijão e o arroz, cobertas com sacos plásticos. Eu não senti medo, nem opressão. Sentia como se de algum modo, pudesse entrever a minha própria caverna íntima, um lugar onde eu pudesse apenas ser, tocada pelo silêncio, pelo cheiro do fogo, pelos sotaques sussurrados da solidão, essa fluida companheira que sempre está perto de nós.

 

Virgínia, minha querida amiga, cuidava da #audiodescrição, mas, naquela caverna pequena, eu pude saber da manhã acinzentada, raiada de chuva. No topo daquela montanha, pude pressentir os braços abertos do velho, na sua rústica ode à liberdade.

 

E quando nada mais tínhamos a esperar, a câmera de Cao Guimarães entremostra-se ao velho, desvenda para ele próprio, carente de espelhos, as rugas do seu rosto, o mapa da sua solidão, de 41 anos.            

 

A câmera de Cao Guimarães nos entrega a alma do osso, envelopada num sorriso de menino, lambuzado de satisfação, a lavar nossa própria alma.

 

Saímos da tenda e não quisemos mais nada, a não ser estarmos juntas, falando do velho. Que nos perdoassem as outras atrações do #Cineport, só queríamos ficar mais um pouco ali, na caverna do velho, alheadas do mundo cá de fora.

 

“A Alma do Osso”, documentário da trilogia da solidão de Cao Guimarães,exibido no Cineport-João Pessoa, sexta-feira, 23 de setembro, a partir das 18 hs.

 



Escrito por Joana às 12h56
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Arquinho Bagunçado, Trêmulo e Psicato



Não pensem que estou tentando descrever alguma síndrome, ou mesmo algum episódio funesto. No título dessa crônica, há apenas três novas metáforas que começam a fazer sentido na vida de uma violinista que, do alto dos seus sete anos, fará hoje seu primeiro ensaio com a Sinfônica Infantil do Espaço Cultural.

 

Quando Gabriela chegou ao mundo, naquele 24 de março de 2004, o único indício da sua determinação era o choro: Alto, agudo, choro em si maior, límpida sinfonia de quem queria respirar, testar seus pulmões, encontrar seu assento definitivo na vida. Com pouco mais de um ano e dois meses,encolheu os ombros e provou que já sabia falar. E com suas pequenas mãos de fadinha, foi arrancando da vida suas fatias de realizações.

 

Sensível, inteligente, Gabriela as vezes espanta-se do mundo, e deixa adultos espantados, na porta da escola, quando reivindica o seu direito de chorar, esse choro de vontade de ser criancinha pequena, deixar-se ficar encostada em alguma almofada de sonho. Chorar um pouquinho, para depois retomar sua intenção de surpreender, surpreender, sempre. Gabriela dança balé, Gabriela prepara massa colorida, na sua casinha de invenção de cabelos para os seus bonecos.

 

E, surpresa das surpresas, quando Gabriela é toda silêncio, escondida por trás da estante, surpreende aos adultos, com um grossso livro que mal segura, aberto entre os braços. Gabriela surpreende a esquadrinhar a palavra logarítimo, como se fora bailarina, um pé esticado, quase tocando o mistério insondável dos números.

 

“Arquinho bagunçado”, “Trêmulo” e “Psicato”. São as novas metáforas que Gabriela aprendeu, para tocar sua”Nuvenzinha”, o violino que ganhou do avô, quando completou seus sete anos.

 

Primeiro dia de ensaio, café da manhã frugal, vegano. “eu como pouco, como o meu pai”, constata ela.Violino ao ombro, sorriso na cara, passo comprido, pois quer encurtar a distância entre sua casa e o espaço cultural. “Asa Branca”, sinfonia de cordas, porque o mergulho de Gabriela, no mar da vida, é estética pura, poética de mil faces, vai Gabriela, toca tua “nuvenzinha”, arquinho bagunçado, psicato límpido e forte, como o teu caminhar.



Escrito por Joana às 09h20
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A Fala do Vento



Essa minha mania de escutar as coisas, tentar decifrar suas falas. Hoje, é o vento que fala nessa minha crônica. Uma fala sem ritmo, estreptosa, soprada, salivando gotas de uma chuva que espera, pasmada na sua teia de nuvens, como no romance de Mia Couto. Palavras de vento, invadindo a casa, desforrando minha cama, enfronhando-se na minha delicada colcha de quadrados amarelos, desmarcando meu livro, empenando a persiana, desarticulando a precária ordem da minha sala, trazendo da rua, imprecisas sílabas de grãos de poeira, de pólen, um pequeno pedaço de papel, uma nota de compra onde as letras já quase desapareceram.

E por artes de alguma maquinaria escondida, de repente o vento silencia, como se cismasse, como se lesse na cozinha cósmica do universo, alguma receita mágica de força. E volta, o vento, quase gritando, que não consegue desenredar a água da chuva, que o mar, como um namorado ciumento, inventa desculpas para que ele, o vento, encrespe suas ondas, revire a areia da praia, descubra o lixo enterrado, a flor que murchou, a pequena concha escondida.

Revoltado, sem pedir licença,   nessa sua faina de desarrumar, eis que o vento despega da parede o quadro de Van Gogh, que tenta equilibrar-se nos trementes dedos da ventania, mas, escapole, estatela-se no piso da sala, estampido surpreendido pela nesga de sol, a inventariar seus mistérios. A chuva não virá. Incansável, o vento vai falar até que todas as vidraças se fechem, até que as árvores todas lhe emprestem suas folhas, como lenços de meio dia, para asua fúria.



Escrito por Joana às 12h26
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Cronica para Marina



Como é bonita, a vida! E por que estou dizendo uma coisa aparentemente tão óbvia? Porque Marina vai chegar.

E quem é Marina, perguntarão vocês, queridos leitores.

Marina é uma gravidez de seis meses, no ventre de Raissa, que vem a ser a filha da minha querida amiga Socorro costa.

Hoje toquei na barriga de Raissa, redonda e linda, e pensei na vida da gente, entrelaçada, por tantos laços, tecidos em linha fina, o curso do mundo fazendo das nossas famílias uma espécie de comunidade.

Conheci Socorro ainda quando estávamos na faculdade. Trabalhamos juntas no jornal O Norte, nos casamos, e engravidamos ao mesmo tempo, quase. Raissa, sua filha mais velha, tem a mesma idade da minha filha Mariana.

O mundo girou, nos distanciamos, mas, o início do século XXI nos pregaria uma deliciosa surpresa. Sem sabermos de nada, por caminhs diversos, eis que compramos nossas moradias num mesmo prédio de apartamentos.

E já são quase dez anos vivendo perto uma da outra, trocando confidências, rindo juntas, passeando juntas. Mas tinha uma coisa faltando. Eu tinha Gabi, minha primeira neta, e Socorro ainda posava de mamãe, sem saber como é doce ser avó.

A dieta finalmente foi quebrada. Minha amiga querida já tem Marina, na barriga da sua filha Raissa. Mais um mosaico se acrescenta no afeto da gente. Marina vai chegar, para sorrir no parque, amar os jardins floridos da nossa rua, escutar os bentevis, dormir nos braços de Socorro, enquanto desfiamos nossas conversas de sexta-feira, fim de tarde, nessa cidade em que o espetáculo dos ipês em floração se prepara.

Marina vai chegar em agosto, e no íntimo eu lhe cantarei o mantra da sua saudação: Vem Marina, vem, que é bonita, é bonita, é bonita, a vida.

 

 



Escrito por Joana às 18h17
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#jáindo



Ocorreu a vocês, queridos leitores, que o #Jáindo é um lugar? Tenho pensado nisso essa semana, pois viajo na quarta-feira para Natal, onde minha filha Mariana se submeterá a um implante coclear.

 

O #Jáindo é um lugar. Movente, indefinido, vago. Um lugar onde ainda não saímos de casa, mas cumprimos a rotina como se ela já não fosse nossa, onde intimamente fazemos mil vezes a mala, dispondo as coisas que queremos levar, retirando outras coisas que antes julgáramos imprescindíveis, escolhendo as várias bolsinhas onde separaremos nossas miudezas.

 

O #jáindo é um lugar onde ficamos inseguras e queremos provar que somos imprescindíveis, mesmo não estando em casa. E nos pegamos a fazer listas de compras, imensas listas de compras, “para que não falte nada enquanto estivermos fora”.

 

A viagem só se dará na quarta-feira, entretanto, nos pegamos a telefonar para o encanador, para o entregador de água, para a professora de violino. A conversa? Sempre a mesma. – Vou viajar na quarta-feira, o  senhor poderia ficar a postos, se alguma coisa acontecer na minha casa?”

- Andréa, não estarei em casa na quarta. Vou viajar, mas deixo tudo arrumado para a aulinha de violino de Gabi. E ela me deseja boa viagem em sol menor, haveria uma pontinha de alívio na sua voz?

 

O #Jáindo é um lugar onde fazemos planos, num presente infinitivo, angustiado e saboroso, porquanto, muitos deles, só terão o frescor de terem sido pensados, sem nunca se realizarem. – E se eu encontrar Fernando? – E se não houver travesseiro alto no quarto do hotel? – E se o melão de lá for mais doce do que o da nossa casa? – E se? E se?

 

Vou confessar: Gosto mais do #Jáindo do que do #Tendochegado. No #Jáindo, sou essa passageira que sequer tomou seu acento, e vaga por entre os intervalos de ainda não ter ido e quase indo. Nem escolheu ainda o traje da viagem, mas já se veste de uma aura só dela, de importância, a demandar mãos que dirão “tchauzinho”, abraços e beijos mais demorados, um misto de saudade ou alívio, não se saberá.

 

Estou no #Jáindo. Os próximos dias se desfolharão num tempo estranho, 24 horas longas e curtas, cheias dessa zona inclinada de ainda não ter ido, mas quase indo, um pé aqui outro lá, vamos Nana querida, que essa viagem não será de passeio, mas de conquistas!

 



Escrito por Joana às 11h02
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O mercador de sons



 

Podia ser um professor, um orador de praça pública, um publicitário. Escolheu, ou foi escolhido pela vida, para ser um vendedor de camarões.

Não sei onde mora, como se veste, qual a cor da sua pele, em que recipiente leva os seus camarões. Mas torno-me presa do som da sua voz, quando ele passa pela minha rua, a meio da manhã de sábado, passagem tão breve como se fosse um pássaro exótico, a exibir sua plumagem, seu canto ao mesmo tempo rústico e belo.

Que circunstâncias cósmicas, ou casualmente improváveis fazem com que a manhã silencie, o vento se acalme, a rua refaça sua acústica, para a sua passagem, o seu apelo, composto apenas por três inserções, entre curtas pausas?

Quanto tempo, quanto sol, quanta pescaria terão sido precisos para o aperfeiçoamento da sua invenção, palavra única, cuja força máxima em empregada na última sílaba, que fica reverberando nas janelas, nas esquinas, nos espíritos?

“camarou, camarou, camarou”, prega o homem, uma discreta sombra de til na última sílaba, a força e a integridade da voz a exibir-se a uma manhã pasmada com a beleza daquela cena rude.

Eu também, paralisada, degusto aquele som, procuro na fala alguma imperfeição, resquícios de um pigarro. Nada empana aquela cena, feita para um palco aberto, onde os espectadores é que estão por trás das portas, das janelas, das cortinas.

“Camarou, camarou, camarou”. Já ultrapassou a praça das muriçocas, e aqui dentro, recolho a minha vontade de correr à rua, abordá-lo, examinar seus camarões, contar meu dinheiro, entregar-lhe algumas cédulas e pedir-lhe a mercadoria da sua palavra inventada, para temperar um postal da minha rua, uma canção de sábado, uma prece ao trabalho.

 



Escrito por Joana às 11h19
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Entre Polpa e Sementes



As vezes, ocorre-me que as coisas da minha casa estão cheias de conversas. Os armários, a louça usada na pia, os legumes...

 

Hoje pressenti que a metade do  mamão que eu cortara para o café da manhã estava assim, a escorrer de palavras, sentimentos, sentidos.

 

Primeiro pensei em desprezá-la, por causa do seu amadurecimento exagerado, sua polpa em grande promiscuidade com sementes e espécies de talos endurecidos, denunciando algo como um acidente de percurso, quem sabe uma doença...

 

Foi quando escutei sua fala, aflita, adocicada.

 

- O que pensa você sobre esse meu estado, faca cingida ao meu ponto de corte, a desvendar, sem apelação, essa minha pequena trajetória?

 

Que julga você que esteve envolvido, para que esse seu prosaico momento acontecesse, nessa manhã de sábado, defronte da sua pia de cozinha?

 

Silenciada, como um médico apanhado em falta, comecei a palpar o peso daquele fruto, suas mazelas, seus amolecimentos vergonhosamente tingidos de partes duras.

 

Provei todas as suas partes, avaliei a integridade das suas sementes, tentei adivinhar o sabor da terra onde ela se firmara, enverdecera. Compreendi, no amassado da casca,a contusão pelo armazenamento indevido, a marca que a classificaria como fruto inválido, em qualquer momento da sua cadeia de escoamento.

 

Acabada aquela primeira fatia que ainda ecoava dentro de mim, comi a segunda, o mamão inteiro, sentindo, junto com seu sabor insosso, uma espécie de alegria íntima por ter conversado com um fruto ao mesmo tempo tão jovem e tão velho, ter experimentado suas fraquezas, alimentadas e sustentadas por  suas poucas forças, um resto de doçura, uma espécie de hibridez.

 

Não foi um momento prosaico. Entre polpa e sementes, defronte da minha pia da cozinha, vivemos, eu e o fruto, um processo de troca, de comunicação.



Escrito por Joana às 12h05
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O Ultimo Dia



Visto-me desse resto de dia. Enfronho-me nas suas poucas horas. Perfumo meus cabelos com o hálito da noite. Calço-me das velhas sandálias da rotina, desse dia ultimo, com suas flores, seu almoço de arroz branco, sua azáfama cozinheira, seus fogos de artifício. Desde o princípio da minha vida, sempre foi assim, com o tempo a me emprestar seus lenços de meio dia, o enxoval completo do anoitecer, o desnudar orvalhado da manhã. Sou essa mistura de cores, cheiros, sorrisos e lágrimas de todos os dias da minha vida. E quando o novo ano bate à porta do tempo, com seu traje de gala, ancoro-me ao último dia que me vestiu, dessa alegria, dessa vontade de prece ao anoitecer, desse espolcar de champanhe, no fio da última hora. E o meu ano novo se reconhece e se recomeça nesse lugar, em que os dias principiam, à sombra de outros dias. Os anos chegam, à sombra de outros anos. A vida germina, ao calor de mãos que se aproximam.



Escrito por Joana às 20h36
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Frango ao Molho em 140 Caracteres



O Cheiro dos almoços das cozinhas alheias me enfastia. #Preguiça.

 

Sonhar que uma pessoa estranha bata à minha porta e me ofereça uma bandeja cheia de iguarias, de uma cozinha alheia:  #Ilusãodeestômago.

 

Não cozinho hoje, senão, em fogo brando, a minha #preguiça.

 

Que brisa indiscreta essa, a alardear o que se faz nas cozinhas nos outros! #Frangoaomolho, é a notícia cantada à polpavento!

 

Deixem o arroz pegar, só um pouquinho, se me é dado pedir algo a quem sequer conheço, nem sei onde mora.

 

E o frango, que não me venham com asas e pescoços, só como partes mais fornidas.

 

E molho, molho bastante regando o macarrão, diga a eles, brisazinha fofoqueira, se faz favor.

 

E se ainda me é lícito pedir, trate de não inventar #ventania, na hora em que me tragam a bandeja. Não gosto de comida fria.

 

 



Escrito por Joana às 12h56
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