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Barrados no Braille | |||||||||||||||
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Quase Nada, ou Sinfonia para um pôr-de-sol Desse último pôr-de-sol a que assistes embevecido, não verei os tons de vermelho púrpura, de laranja, não assistirei à coreografia desse iluminar. Escutarei somente as notas do bolero, e nalgum intervalo, entre uma nota e outra, pressentirei o rufar suave da tua emoção, no inspirar e expirar das tuas narinas. Sujeitada à palavra, pescrutarei outros sóis a se pôr, resvalando pelos túneis da memória, reinventando fios de narrativas de Proust ou de Gide, e como Gertrudes, me alimentarei da pura emoção, aquela que se tece não se sabe onde, neurônio tocando neurônio, forjando sílaba por sílaba, o solo do afeto genuíno, sem qualquer feição visível, como se fora tépida sauna para o deleite da alma, com seus aromas sutis, suas vagas sugestões de sonoridade, suas sensações como a imprimir suaves carícias mornas naquilo que penso ser a pele do meu espírito. Desvestida de mim, possuída pela ausência das formas concretas, quase me assusto ao escutar a explosão da nota final do bolero e me assusto mais, ao ver pousada na minha quase-mão, a quentura de uma lágrima tua. E nessa quase noite, acode-me esse pensamento absurdo e claro, de que, a tua lágrima pousada sobre a minha quase mão, anuncia o vislumbre de dois mundos que se tocam, mas não se reconhecem. Escrito por Joana às 20h02 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Vinte e Um de Junho Mais três dias, e os ponteiros cosmológicos encostarão no segundo zero dos 52 anos dessa minha existência física. E por que será que essa alegria que me assola, empresta-me todos esses punhais? Por que parecem-me habitar, antigas vozes de outros templos, ressoantes murmúrios de células ínfimas de mim, deixadas para trás, na velha cozinha das minhas vidas passadas? Por que será que me acode esse gosto de réptil na boca do estômago, por que esse afogamento brutal e desnecessário em violento e mar salgado de navegações esquecidas? Procuro na poesia, os lenços limpos da casa da minha mãe, guardados religiosamente nas camisas engomadas do meu pai. Parece que dentro de mim se preparam tempestades, porque me vem a lembrança de haver esbarrado no velho pilão de milho e se revifica aquele hematoma roxo na coxa direita.e me prostra a vívida dor de quando me picou, no oitão de casa, a lagarta de fogo que disputava sua loca com o dedão do meu pé esquerdo. Vou fugir. Deixarei todas as portas inventadas a baterem em uníssono, socadas pelos ventos de infância. Por que não se inventou ainda aquele jeito da física teórica de enrugamento de espaço? Século XXI, anos quarenta. Inventou-se um jeito de reorganizar minhas velhas células na primeira viagem lunar desse século. Filhas minhas, esqueçam a última cláusula do meu testamento. Não precisam gastar a poupança do crematório. Entre marés lunares, me revolverei entre gelo e terra movediça e habitarei o feliz esquecimento do que fui, terei sido e serei, num alegre silêncio de fundo de lua. Escrito por Joana às 11h58 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O Último Triunfo do Mercado Midiático, ou Requiem para o meu Diploma A aprovação pelo Supremo, do fim da exigência do diploma para o exercício da profissão de Jornalista, caiu ontem como uma bomba nas cabeças de dezenas de milhares de profissionais Brasil afora.Como se houvéssemos perdido o chão, como se nos fosse retirado de repente, sem qualquer aviso, um lugar espaciotemporal onde nos identificávamos, onde nos reconhecíamos, individual, coletiva e juridicamente. Naqueles primeiros momentos de impacto da notícia, o meu sentimento maior era de desolação. Pensei na curta vida do diploma, e, na minha própria vida de jornalista, engolfada dentro desses quarenta anos. Em 1969, ano da aprovação da Lei de Imprensa e da exigência do diploma, dentro dos meus doze anos, eu já pensava vagamente em ser jornalista, e, posso dizer, pensava mesmo como os magistrados do Supremo, pois já gostava de escrever, e de ler, e julgava, como eles, que esses eram atributos suficientes para ser um bom jornalista. Doze anos depois, cabelo solto ao vento, indisciplina alegre na cara, pés descalços a correr pela orla de Tambaú, ao lado dos meus colegas, fizemos o rito simbólico de atirar para as águas, o pequeno canudo representando o diploma, que havíamos recebido das mãos do reitor, na nossa solenidade de formatura, numa noite do princípio de agosto de 1981. Éramos um bando estranho, forjado por uma escola crítica, Frankfurt-Jampa, atados pela idéia de um jornalismo engajado, desempregados, ora felizes ora medrosos, espantados com os récem-fantasmas dos porões da ditadura ainda vigente, atiçados por recomeçar, no batente, a luta por uma sociedade democrática que tínhamos inventado, nas suas vozes, nos seus gestos, nas suas bandeiras, na tribuna universitária. Naquela noite, nosso dinheiro só dava para cuba-libre, misturada ali mesmo no calçadão, espolcando em brindes e brados, em descuidado intervalo, antes de vir o batismo da redação, antes de sermos, potencialmente, jornalistas. Tímidos focas, ávidos por começar, ingressamos nas redações, e então, Meritíssimo juiz, conhecemos as trincheiras entre a liberdade de expressão e a lógica do capital, aprendemos todos os dias, o exercício do jornalismo cidadão, engajado, esboçado em nossos textos, laudas e laudas que depois eram revisadas, riscadas, formatadas à lápis e a régua, na diagramação do jornalismo isento, neutro, higienizado dos excessos de liberdade e de expressão, infantilidades de meninos e meninas de escola, que era preciso limar. Vez em quando, entre um sanduíche comido à pressa e a cobertura de uma passeata de sem-terras, vinha o gosto dos dias descuidados dos bancos da escola, onde as lições dos nossos mestres ganhavam agora um novo tom de verdade, a verdade de que na prática jornalística daqueles dias, nas apertadas trinta linhas de cada fatia noticiosa, termos como democracia, liberdade de expressão, cidadania, não passavam de espécies de marca-texto para a nossa memória estudantil. Aprendemos, em cada dia, a recomeçar, e a produzir uma espécie de brecha, entre o que tínhamos aprendido na escola e na prática das redações. Pouco a pouco, como um cicatrizante, uma ponte entre essas duas realidades se forjou. Aprendemos a lidar com dois senhores. Aquele do nosso ideário e aquele bravio senhor do mercado. E eis que agora este senhor, o do mercado, renovado sob o manto da justiça, exibe o seu último triunfo. O jornalismo é de todos, da liberdade de expressão, da arte e da literatura! Brada a suprema corte com suas oito bocas para o deleite deste senhor, de largas comportas, a exibir seu último triunfo em letras garrafais, em imagens animadas de câmeras e flashs. E mesmo agora, quase cinqüenta linhas escritas, meu estado ainda é de desolação. Onde, o chão que me forjou? No quadro da parede, o diploma da morte de todos aqueles anos. Quase posso ouvir o troar na porta da frente. Mulheres e homens livres que chegam, ávidos por dizer, na cena midiática, ávidos por lavar, nas cozinhas do jornalismo, mágoas, alegrias e vontades. E eis que se me aclara a primeira lição do dia: Os jornalistas não são mais uma categoria. Os jornalistas, graças ao senhor do mercado, rebatizados pelo vigoroso toque da caneta da Suprema Corte, realizam o sincretismo profissional onde todos cabem, nessa alegre democracia de sotaques e estilos, nessa aberta plataforma colaborativa dos cidadãos do mundo!
Escrito por Joana às 14h38 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Escritura Amorosa Enquanto no fundo do mar, sobre os dentes eriçados de montanhas banhadas de sal e de limo, um mundo insuspeito de sonhos se despedaça; enquanto os aviões desenham suas rotas sob a turbulenta engrenagem de gelo e vento; enquanto a manhã de sábado ensaia suas múltiplas vontades; escrevo essa carta de amor, sem destinatário, percutindo no teclado, bits que sulcarão as telas, invisíveis como o silêncio dentro de mim, povoado por palavras. Uma carta tola, como as tolas cartas dos apaixonados Drumonianos;uma carta sem destinatário preciso, remetida da minha pequena ilha solitária, onde persigo “sombras de Antepassados Esquecidos”. Com os meus dedos úmidos de orvalho, escrevo na areia essa carta de amor para esse senhor que me visitará pelo fim da tarde, e terá restos de plantas na camisa e nos cabelos, e terá a voz rouca pelo cansaço da lida no mar, e teráa paciência para contemplar o meu sorriso,para limpar a sujidade da areia das minhas mãos e beijar com calma o frio dos meus dedos. Escrevo para esse senhor que me visitará à noite, e, sentado comigo no sofá da sala, emparelhará a sua respiração com a minha e faremos juntos a escuta dos grilos, enquanto alua minguante fará a terra estremecer de frio. Escrevo para esse senhor que me visitará de madrugada, e com voz de sono, a fazer duo com minha voz de sono, avaliará os planos para o dia seguinte. Escrevo para esse senhor de quem sequer sei o nome, mas com quem já briguei, para pedir desculpas, para voltarmos dez e mais dez passos, e entrarmos de novo na nossa ilha,e nos permitirmos as carícias do mar, e nos entregarmos aos eternos gritos sem palavras da nossa paixão. Escrevo para esse senhor, para quem prepararei o chá todos os dias,e a quem as vezes direi coisas terríveis,sob a música de fundo da tempestade a bater as portas; escrevo para esse senhor, a quem depois, sob a voracidade da chuva de junho, pedirei desculpas Escrevo para esse senhor, que chega apressado, empilha minhas roupas junto das suas, na mochila grande e me leva consigo para a aventura de estar no mundo. Escrevo para esse senhor que deixou para trás todas as minhas cartas, espalhadas ao vento, e cuja sombra vejo agora, confundir-se com a sombra das árvores, lá longe. Escrito por Joana às 09h55 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Corrida de Táxi Br 101, manhã de sábado, molhada de chuva. A rodovia, como uma negra cauda esticada, nosso táxi a correr, feito um bicho, a brisa vindo de todo lado, a desconstruir a noção de ordem, de lugar, de espaço. E eu, parada dentro do carro que me viaja, afadigo minhas células com o velho ofício de pensar. Sim, penso no espaço e no tempo dendro do espaço. A brisa, a chuva, o tempo, o carro, dentro do espaço. Eu dentro do carro, pensando nas acontecências do tempo, durando apenas no espaço dessa estrada. Br 101, eu dentro do carro, e, dentro de mim, minhas lembranças, feito velhas tias solteironas em povoado desabitado, inventando telegramas que somente elas lêem, baralhando curvas, datas e horas, embarafustando palavras inconclusas, no meio de frases lapidares. Descida de Goiana, com seu ramalhete de curvas fechadas, promessa de morte, desacelerando, nunca faça uma ultrapassagem aqui, me diz o motorista, as palavras caindo no côncavo da ilha das lembranças, feito passageiras em fim de viagem, transidas de chuva. Dentro do espaço, a chuva dura somente o tempo da nuvem fazer-se em água e derramar-se toda. Dentro do espaço, a cauda da estrada estria-se emcurvas, bifurcações, paradas para espreitar o tempo do sinal abrir. Vamos chegar. Dentro do espaço, a casa se fará novamente lar, no átimo de segundo em que eu girar a chave na fechadura. Dentro do espaço da casa, vivo o tempo presente. Minhas lembranças, em seu povoado desabitado, são agora telegramas selados, até a próxima viagem. Escrito por Joana às 14h55 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Vitória Chegou Em homenagem à minha sobrinha, nascida na noite do dia 29 de abril
Fim de noite, quase madrugada, e Vitória chegou. Espreitou o mundo, assombrou-se com a luz e semi-cerrou seus pequenos olhos. E milagrosamente viu toda sua pequena grande história condensada, como num mini dv, desdobrar-se, em grãos microscópicos de nano-segundos. Deliciou-se com os primeiros gestos que a fizeram ser. Mãos entrelaçadas, bocas em sorrisos e beijos. Na sua linguagem universal, sem sílabas nem dentes, Vitória enunciou as primeiras falas do seu nascimento. Sou fruto de beijos e açúcares, mas sinto tanto sono! Adormeceu no pequeno pedaço de mundo que ainda não reconhecera como seu, pequena côdea branca de espaço, fofa e cheirante. Foi buscar seus sonhos. Foi buscar a ilha onde sempre vivera, braço de mar onde nadava e dormia, em todos os minutos dos dias em que estava ocupada em crescer. Quando acordou, primeiro sentiu falta da sua ilha. Depois sentiu outra coisa esquisita, e como não tinha ainda palavras para aquilo, pediu socorro ao mantra de chorar. - é fome, vaticinou mamãe. E sem o saber, Vitória realizou pela bilionésima vez, o antigo brinde à vida, num sorvo ao mesmo tempo cuidadoso e forte. Reconheceu seus açúcares, sentiu na derme aquele carinho gostoso que ainda não sabe decifrar, e mandou para sua ilha o cabograma da sua primeira lição de vida: Estou aprendendo a sorrir. Escrito por Joana às 09h27 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Correndo a Catorze Hertzs O tempo não Para, tinha dito Cazuza na década de oitenta. O tempo não para. A vida escorrega pelos dias,e, segundo a hipótese da ressonância Schuman, abandonou seus 7,83 pulsações por segundo para a desabalada carreira dos 13 pulsações por segundo. É assim que pulsa a terra, desabaladamente. É assim que pulsa o nosso cérebro, e o nosso coração. Assim pulsam as galáxias, na sua corrida incessante em busca de distância. Minha casa também corre a 13 pulsações por segundo, e por mais que eu tente desinventar os dias, por mais que eu tente escalar o topo do redemoinho, para equilibrar-me em algum ponteiro da vida, para contemplar uma flor, um sorriso, a doçura ou o ácido da tua voz, não há como. Os instantes se estilhaçam, vibram a 13 pulsações por segundo, pulsam o tempo ínfimo de uma nota musical, na melodia alegre de Schubert, e viram passado. Brinco de cabra-cega com as palavras que deixastes soltas pela casa, no teu abandono de estares aqui. Correr assim, enquanto o mundo me empurra a 13 pulsações por segundo, é como descorrer, sentindo essa pressão esquisita na boca do estômago,sentindo esse deslizar esquisito dos pés que não conseguem acompanhar a corrida vertiginosa. E por força da fantasia, corro atrás dos dias que se foram, e procuro a acidez do umbu por entre os teus lábios, que na corrida a 13pulsações por segundo, , deixam cair o sumo da fruta sobre a minha blusa branca. A vida corre a 14 pulsações por segundo agora. Vejo tuas mãos, a meio palmo das minhas, palmas abertas, dedos estendidos, prenúncio da carícia que não se fará. Escrito por Joana às 13h33 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Vinte e Um de Março Jovem ainda, deram-lhe aquele homem como preso político para vigiar. Vigiou-lhe as vinte e nove facadas no abdômen, viu ali a escrita macabra de uma poesia sem tréguas, enferrujada e suja, e deiixou-se evadir para o rio da infância, ali onde já era poeta, ali onde enquanto adivinhava buthjiás maduros caídos ao chão, encontrava os olhos do pai, na profundidade verde daquelas águas. Acordou de madrugada, sob os gritos da tropa, para aprender sobre emboscada, campos minados, buracos escuros onde não se podia respirar, e mesmo ali, bebeu até a última gota sua hoverdose de sensibilidade, escrevendo poemas em velhas folhas, na pele das mãos, na planta dos pés, guardando-se em silêncios duros, crivados de poesia. Entregou a mochila e as armas, correu para casa e leu para o rio a poesia de Maiakovski, como uma espécie de brado, “Nós polimos a alma com a licha do verso”. Desde então, desde sempre, descarna sua alma para compreender-lhe as sílabas, “...nenhuma vingança dentro de si,” Amadurece a esgrimir com as palavras. Descarna-lhes todas as sílabas, somente para deitar cá para fora um sopro de poesia. Madrugada. Na casa adormecida, o poeta vive. “e assim fui engolindo o tempo
bebendo as vinhas do esquecimento
minhas mentiras íntimas doces folias de momento
(a vida eu mesmo invento)”. (Poema de Lau Siqueira) Escrito por Joana às 08h39 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Minhas Mulheres
Eu nunca pude fazer roupas para elas. Então, desde sempre, as visto de palavras. Fiz em segredos, vestidos para a minha mãe, porque no fundo, bem lá no fundo, eu sabia que ela era uma menina vaidosa, de cabelo longo e claro, que amava vestidos brancos de fé para ir à missa, e depois, quando saía da igreja, queria a brejeirice rosa de um sorriso para ofertar às suas amigas de quarta-feira. Costurei-lhe roupas confortáveis de carinho, com almofadas nos ombros, para quando ela fosse ao roçado. Fiz camisolas longas do meu amor, para quando ela fosse se deitar com meu pai. Depois começou a faina de vestir mariana, que eu primeiro batizei no meu sonho, e, quando chegou, inventando aquele jeito de sorrir com o corpo todo, para que eu pudesse ver o seu sorriso, foram metros e metros de ternura, alinhavada com toda essa doçura que ela tem, arrematada pelo brilho da sua inteligência. Como eu ia vestir Mayra? Tantos e tantos lacinhos de ternura, mas ela, irreverente, desde o princípio, desmanchava todos eles, em ânsia de pororoca, de aventura, de rebeldia. Somente quando Mayra dormia, eu provava nela todas as roupas que inventei, de contemplação tátil, de escuta da sua respiração, de tocar no seu riso de bochecha crescida, que ela inventou para o prazer dos meus dedos. Para Gabi, tenho que fazer roupas novas, todos os dias. Roupas que nascem do fio do meu amor, irrefletido, incosequente, grande, grande, egoísta por fazê-la falar, para que eu degluta todos os sons lindos forjados na sua garganta. E tu Gláucia, porque és mulher de dentro da casa do meu coração, nunca pude te vestir, porque, seja na alegria, seja no sofrimento, seja na faina de cuidar dos filhos, para mim Gláucia, tu estais sempre bonita.
Escrito por Joana às 12h28 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Saudade Líquida (Pelo aniversário da minha irmã, In Memoriam)
No teu mundo, o que se faz agora? Queria te contar dessa saudade líquida, como suave corredeira de Rio. Queria te alcançar, de algum jeito, queria achar um ponto de intersecção entre os nossos universos, fazer uma conexão contigo, entretanto nesse meu mundo que já foi teu, só tenho essa tarde suada de chuva, com seus cachorros bramindo por liberdade, com suas crianças a brincar, na sua liberdade vigiada. O que se faz no teu mundo, agora? Tens outro aniversário? De algum modo, a lembrança do dia de hoje te visita? Aqui, nesse meu mundo que já foi teu, a tarde mareja os sucos do verão, mesmo assim há um tênue frio, e eu penso na qentura do teu amor, lençol branco a cobrir todos nós. Foi pensando nesse teu amor que indagorinha, num impulso, liguei pra minha filha, que tu adoravas, a tua Lili. Liguei pra ela e lhe disse do meu amor, como um lençol branco, emenda do teu próprio lençol, a cobrir todos nós. No teu mundo, será que podes fugir para um quarto que seja teu, para ligar bem alto o som, para escutares, no dia de hoje, todas as músicas de que gostas? Aqui, no mundo que já foi teu, só tenho essa tarde que se tinge de um por-de-sol tímido, enquanto as crianças correm para o banho de quase noite e a calma dos cachorros é somente uma trégua para as horas de silêncio. No teu mundo, será que há um anteparo para o tempo, uma espécie de ponte de onde tu podes mandar recados, concluir conversas, estender aos outros o lençol branco do teu amor? Aqui, nesse mundo que já foi teu, só tenho essa tarde que se finda e uma saudade pesada de palavras inconclusas, de gestos de abraços incompletos, a rebater no meu coração, como rio de todas as chuvas, sem qualquer anteparo. Escrito por Joana às 17h37 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Acalanto Branco
Ontem, enquanto revíamos fotos de Paris, minha irmã Cida me perguntou do que eu mais havia gostado na França. - De tudo, eu disse. Dos passeios, do congresso, das geladas noites embaixo das cobertas ou no calor aconchegante dos restaurantes, do riso aberto do meu amigo Ibrahim, com sua túnica africana, até do bife chartier que não era bem um bife eu gostei. Não contei pra minha irmã, daquele momento singular que agora vive em mim como uma das lembranças mais queridas da França. Momento ínfimo que se destacou dos outros, como uma centelha,e veio habitar o meu coração, como uma espécie de mantra, como um acalanto branco, música singular e plástica, que agora moldo ao meu bel prazer, reinventando todas as suas cifras. Foi na tarde do dia sete de janeiro. Um pouco fatigadas do burburinho do salão principal do congresso, por volta das três da tarde, renunciamos ao elevador, e descemos as escadas, para nos depararmos, no terceiro andar da sede da Unesco, com enormes corredores habitados pelo silêncio. Silêncio? De repente algo chamou minha atenção. Um som, um picotar, um tamborilar, como se alguém estivesse escrevendo em braille. Guiei Mariana para o lugar de onde vinha o som, e, diante da vidraça, ficamos em silêncio, maravilhadas, escutando a neve a deslizar, pequenos flocos brancos a compor uma música líquida, irregular mas constante, pequenos flocos brancos a estralejarem suavemente, num ritmo aleatório, a minha inédita canção francesa. Sei que nunca serei capaz de descrever o que senti. De dentro do frio, eu sentia calor. Sentia alegria. Alegria salpicada com algo profundo, porque pensei, naquele ínfimo momento, pensei na trilha dos milhões e milhões de anos, no frio, aengendrar a neve. Milhões e milhões de anos, e, num arranjo de minutos improváveis, eu ali, nariz colado naquela vidraça, a escutar a invenção do frio, feita em música de neve. Quem sabe, noutro dia, eu tente inventar outra crônica, para dizer do meu encantamento, porque nessas trinta linhas, tenho certeza que não consegui. Ou talvez eu deixe que cada um brinque com a música imaculada da neve, ao seu bel prazer, compondo por dentro das estrias do frio, o calor desse dueto irregular, ao mesmo tempo lúdico e solitário, num imenso corredor silencioso e quase vazio. Escrito por Joana às 10h55 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Paris, Paris, Um longo dia Branco
3 de janeiro. Chegar e congelar, de frio e de apreensão. Aeroporto Charles de Gaule, 11 da manhã, três graus negativos, ninguém a nos esperar, desmentindo-se assim as informações recebidas por internete. Silêncio dentro do táxi, corações batendo, de alegria, de receio, de frio. Rue Cambrone, Hotel Ibis, 45 euros, "merci beaucoup", dissemos as duas em coro. Recepção, a turma do oxente entaramelando francês do livrinho, "Como dizer tudo em francês", ai que alívio! Quarto 262. Nada de mordomia, é arrastarmos malas nós mesmas. Fuso horário na cuca, banho rápido, roupa e mais roupa, bater perna e queixo também. Isoladas de tudo. Nossas tomadas aqui precisam de "um'adaptateur"! Nem net, nem rede nos celulares. Supermercado. Sanduíches deliciosos, suco de laranjas do Brasil! Despesa do dia: cem euros, precisamos maneirar.
4 de janeiro. As pessoas expectoram de forma abundante em Paris. Não soubemos disso pelos jornais. A notícia está nas calçadas, sempre fresquinha, até que a neve vem e recolhe tudo dentro da sua brancura. Missa de homenagem na capela do Instituto dos Jovens Cegos de Paris. Tosses terríveis no eco da capela. Com personalidade, com ritmo. O "pai Nosso em francês, e nós caladas, escutando a oração. Caminhar, aventurar-se pelo Mont-Parnasse. Meeio dia e os termômetros não saem dos três negativos. Voltar pro hotel. Dor de cabeça francesa só passa com analgésico francês. Catedral de Notre Dame. A noite é do organista cego Jean-Pierre Legay. Quantas vozes um órgão tem? Legay nos mostrou as mais pungentes, as mais complexas, as mais intensas, as mais suaves, as vozes múltiplas a desfiarem sonhos a reverberar, na imensa catedral.
5 de janeiro. Quanta neve Mariana! Nossos pés a triturar aquela brancura, nossos corpos, debaixo da montanha de roupas, a tentar decifrar a corrida dos termômetros. Sete graus negativos agora, nove da manhã, enquanto caminhamos para a sede da Unesco. O Congresso vai começar de verdade. Cinco continentes, 46 países, quase quinhentas pessoas a pensar em braille, a falar em braille. E a neve também, batucando nas vidraças da sede da Unesco, um estranho texto em braille, texto branco, espalhando-se pelas calçadas, pelo asfalto, pelas bordas dos carros. Caminhar pela neve, dependendo do calçado, lembra nossos pés sobre um imenso tabuleiro de goma para tapioca, esfareladiça, nossos tênis fazendo croach croach croach pelas ruas congeladas. Ou então a gente sente como se pisasse em areia granulosa, bruif bruif bruif do solado das nossas botas.
6 de janeiro. O dia é branco, Paris é linda dentro dos seus nove graus negativos. Fizemos amigos. Ibrahim, de Togo; Gérald, da fronteira francesa com a espanha; o simpático casal de holandeses e seu cão Fredrick; Lynda, a moça de Hon Kong; a tailandesa com sua semi-burca; o canadense surdo-cego que nos fez chorar e aplaudir por quase dez minutos, ele que nos ensinou o alfabeto das mãos, braille para que cegos e surdos falem entre si. A noite é da torre, e da música da neve sob nossos pés.
7 de janeiro. Braille! Braille! Os franceses amam aquele jovem franzino que inventou esses pontos de luz. E minhas mãos a tremer sobre o texto em francês, minha língua a tropeçar nas palavras. Eu falei, falei e tremi.
8 de janeiro. Estou em Couprvay, dentro da casa de Luís. Meu coração se recolhe para dentro do silêncio, enquanto a guia fala, fala, fala! Tento imaginar a casa do início do século XIX, abrindo suas comportas para o dia branco da aldeia. Como que escuto o som das ferramentas, na oficina subterrânea do celeiro. Não quero escutar o grito do menino, a azáfama, o interromper dos ferros. Corremos para o jardim. Um jardim branco, pejado de neve. Escavo aquela brancura fria, aperto-a nas minhas mãos. A neve tem vida, personalidade. No breve atrito do calor da minha mão, a neve se reinventa. Penso num menino a sorrir, dono daquele jardim de brancura. A guia nunca mais se cala. Meu coração reclama paz, reclama silêncio. Meu coração quer escutar o vento, quer cerrar as cortinas do tempo; meu coração quer a paz, para o longo dia do menino de Couprvay.
Escrito por Joana às 17h52 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O Tempo Elástico, Como na Canção Francesa
Pensar no tempo a se estender, segundo a segundo, o tempo dos relógios, dos calendários, dos satélites; pensar no tempo universal, esse grande tapete elástico, e nós, a caminharmos sobre ele, a vivermos cada um a ação do seu tempo, isso me fascina, me faz reflexiva. Segundo a segundo, a mais de um ano, me preparei para viver o dia de hoje. Um dia que começa como os outros, com seus pássaros, minha nesga de sol, as casas que acordam, o barulho dos cães, o mar, lá no fundo a espremer suas ondas. E eu a espremer inutilmente essa minha escrita, incapaz de transpor a minha emoção para esse post, lugar de diálogo entre mim e os meus leitores queridos. Pois vou dizer de novo o que já disse, tantas vezes, como se não acreditasse, vou-me embora pra Paris, vou ver a casa onde, no dia 4 de janeiro de 1809, nasceu um menino franzino que viveu a saga do seu tempo para fazer luz e abrir as portas da cultura letrada a milhões de pessoas em todo o mundo. Vou à escola onde ele estudou, onde num dia qualquer da sua curta vida, forjou a malha em relevo por onde transitam mãos de mulheres e homens cegos, num gesto único de tocar as palavras. Vou caminhar pelas ruas, apossar-me do cheiro e dos ruídos da cidade luz, abocanhar suas ilhas de silêncio, e pensar, pensar, no poder que essa escrita pontográfica nos deu, poder que muitos ignoram, poder que outros desprezam, poder que nos alastra o espírito, poder que nos permite, quase que acariciar, com o sobrevôo dos nossos dedos, a beleza da poesia, a vida subterrânea da literatura, o progresso da ciência. Vou visitar o Panteon, e quem sabe forje com a minha escrita braille, uma carta para Luís, uma espécie de prece, ou de poesia, não sei. Sobre o tapete do tempo, os pés plantados no solo do Panteon, que palavras me advirão, trêmulas e inúteis, a tentarem articular a narrativa desse momento mágico, lugar entre dois tempos, e a vaga dos acontecimentos de dois séculos passados? Escrito por Joana às 09h11 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Natais da Infância
Vinte e seis de dezembro, final de tarde e papai Noel veio de novo me visitar. Eu nem estava esperando. Cabelo desarrumado, pés descalços, meu vestido velho que eu mais gosto. Foi somente o sol se pôr e ele aportou em casa, sentou-se no meu sofá azul e ficamos curtindo aquele momento de quando alguém chega e quer descansar, olhando para o meu arranjo natalino, ou para a varanda, adivinhando o azul do mar, lá no fundo. E aí perguntou, como qualquer pessoa perguntaria: - Como foi seu natal, filha? Não era a mesma voz do papai noel da outra crônica. Voz descansada, calma, voz como a do meu pai, naquelas tardes em que eu me ajoelhava para lavar seus pés, e ele me contava das coisas do dia. - Foi um natal branco, eu disse. Com o núcleo menor e mais chegado da minha família. Não precisei dizer-lhe que não haveria café, na xícara de porcelana. Eu queria falar. Falar de outros natais, da minha infância, natais que curiosamente vinham me visitar, com seus sonhos encantados e vivos. No natal, nós deixávamos a escola e voltávamos para casa. E trazíamos conosco os sonhos de uma cultura urbana, incrustados em nossas almas infantis, cinco, seis, sete meninos e meninas deitados em suas alvas redes, chinelinhos encostados à janela aberta para o vento da noite, tagarelices sobre o velhinho que nos traria presentes, minha angústia por pensar no tamanho da minha chinela, o que poderia caber dentro dela? Rebentávamos de conversa e riso, até adormecermos. E o dia acordava milagrosamente o coral dos pássaros, o frescor da manhã, o cheiro do milho a brotar, de dentro da terra, um dia como os outros, nossos chinelos comportadamente à espera dos nossos pés, nossos chinelos onde sabíamos, sem mágoa nenhuma, não haver presente algum. Um dia como os outros, com minha mãe servindo nosso café com leite, nossas arengas de infância, a formação do pequeno batalhão que caminharia rumo à enorme caverna de sombra, no roçado do meu pai. O que mudou em nós, Papai Noel? Por qe damos a esse dia, o peso de tantos desejos? Desejos que continuam pesando, apesar das máquinas registradoras, do último cheque assinado, do limite do cartão de crédito encerrado? Sorrimos os dois e eu ainda queria falar. Nesse natal, jantamos antes da meia noite, e Gabi abriu seus presentes, o riso infantil inundando a casa com seus guizos. Do fundo da minha memória, os natais da infância trouxeram-me o cheiro bom das nossas redes e a música desafinada de risos de meninos e meninas a sonhar com Papai Noel, enquanto a noite ruminava outra manhã, lavada de orvalho, e onde as serras esperavam para repetir, o eco do primeiro aboio do vaqueiro Inácio, a tocar os bois para o mato. Ficamos por um longo tempo calados, escutando a música daqueles natais de infância. O relógio, enciumado daquele nosso enleio, gritou as seis horas e nosso encanto se desfez. Fitei o espelho do fundo do corredor e vi a sombra do riso de Papai Noel, tão antigo como o riso do tempo, na cova do espaço.
Escrito por Joana às 18h59 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Portas de Ir e Voltar
Sentir o cheiro do mar, dali do terraço da casa de Ronaldo, era como umpresente, uma carícia, embalada pelos sininhos de vento, pelas nossas risadas alegres, por cada conto que se lia, a meada das palavras a entreabrir a porta que cada um plantara no solo da sua narrativa, portas entreabertas para o mistério, portas de par em par, abertas para a luz, possibilidades de portas, portas fechadas, a guardarem a opressão dos dias, janelas cravadas a força, para que se pudesse ver, esse estranho diálogo que se tece dentro do amor, e que leva o coração a clamar por uma porta aberta, dentro do peito. Enquanto as palavras descansavam sua leveza na concha do meu ouvido, eu sentia o cheiro do mar e pensava na mania que sempre me acompanhou, desde a infância, mania de pensar em portas, portas plantadas nos lugares mais inusitados. Uma porta plantada no meio do redemoinho, que me sugasse para um lugar de silêncio e de paz; uma porta qualquer, aberta no meio do caminho para a escola, e que me estendesse uma estradinha lisa, salpicada de pedrinhas, que me levasse de volta pra casa. Uma porta que, no meio da aula de neurocognição, rangesse suavemente sua dobradiça invisível e me tragasse para uma aldeia simples, de pescadores, numa manhã acabada de começar, e onde Jupi, aquele belo cão, envergando a sua elegância de pelos bem comportados, viesse me dar bom dia com o seu focinho orvalhado. Sobretudo pensei no mar, no intervalo do ir e vir das suas ondas, como portas a abrirem-se, para dentro e para fora. Pensei no mar, e quis que o seu cheiro me levasse naturalmente para a quentura de um abraço líquido, portas de ir e voltar, onde me fosse dado inventar, para o meu corpo, uma segunda pele, rebordada com conchas e escamas e pequenos pedaços de junco amolecidos pela carícia da água. Portas de ir e voltar, onde me fosse dado inventar, para o coração, música de sonoridade morna e suave, como o rufar das pequenas ondas a lamberem o muro de pedra. Portas de ir e voltar, como o balanço na mangueira da infância, portas de ir e voltar, que me permitissem fugir e voltar depois, sem que se desse por isso. Escrito por Joana às 09h08 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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