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Barrados no Braille | |||||||||||||||
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Cronica do Destempo Nos calendários, nas memórias, mais um ano que se acaba, com sua trilha sonora a tocar vorazmente nas máquinas registradoras, o concerto dos minutos, dos dias, das horas, dos acidentes, dos negócios, dos abraços cheios de um misto de alegria e de nostálgica saudade. Medo? Que palavra é essa que se mistura à receita do bolo, ao borbulhar do champanhe, ao toque das mãos, palma contra palma, levemente trêmulas? Streptease singular esse de livrar-se das horas, despejando seus últimos bocados na bacia do tempo, íntima entrega sem alarde,ano que se desfaz, sem pedidos de identidade, átomo contra átomo, massa revolvida, emaranhado de prótons e neutros a reinventar o agora. Diante do espelho, eu queria gritar para este senhor implacável das nossas horas, a cavar no meu rosto, feito pulga indolente, os caminhos sinuosos das minhas rugas.Queria bradar feito louca um pedido extremo, para que se destravasse a ilusão, para que me fosse dada a alegria de conhecer o destempo, um alegre destempero do mundo a misturar-se em presente e passado, minha palma contra a palma da minha mãe, minha cabeça sobre o ombro do meu pai, minha irmã a segurar, na sua bolsa predileta, o cadeado das horas, nossos rostos estufados de riso, nossas costas a desencostar-se das quinas do mundo, brisa de infância a sacudir as velhas árvores da memória, minhas filhas, a neta do meu sonho a destapar o caldeirão do futuro, nós todos emaranhados nesse desacontecer,abraçados, adormecidos no silêncio de um mundo limpo e virgem, cheirando a chuva, cheirando a marmeleiro, e o som da enxada do meu pai, exumando o cheiro bom do fundo da terra. Um dia começado, onde o implacável senhor do tempo tenha se esquecido de contar as horas,invenção de futuro onde não haja anos caindo inertes na bacia do tempo. Escrito por Joana às 13h42 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Pequena Cronica para um Grande Silencio Foram-se embora, as palavras, assombradas por não poderem explicar esse silencio, essa porta fechada, esse olhar perdido no horizonte, esse eco de vozes infantis que sempre me surpreendem, devolvendo-me mãos cheias de saudade.
Escrito por Joana às 21h58 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Os Passos de Marcos Num dia qualquer, sem aviso, ele se viu estendido na estrada, mãos que pareciam não mais ser suas, segurando um rosto completamente desfeito, empapado de sangue. A caminho do hospital, soube que ficaria cego, mas soube também, que lutaria até à última hora, para não morrer. Para além das ataduras, dos medicamentos, das disciplinas médicas, a sua coragem e teimosia revelaram-se como as forças motrizes de um caminho que ele então reiventaria, para continuar tocando a sua vida. Arrimado a um pedaço de Pau, saía de madrugada, pra reconhecer a cidade que ele vira, nascido e criado em Macaé. Cidade agora silenciosa, ensinando-lhe a dor e a sangue,a lição que ele já compreendera. Viver de cabeça erguida. Esfolar as mãos para abrir as portas. Sorrir sempre,agradecendo a Deus pelas dádivas de cada minuto, de cada dia. Agradecer pela agora longa e difícil travessia de um quarteirão, agradecer por aprender, passo a passo, a tocar as palavras, a perfurá-las, agora em relevo, e não mais naquela sua escrita nervosa e abundante, feita de traços no papel. E esse fim de semana fui ver de perto o caminho trilhado por ele, somente para compreender que Marcos foi longe de mais e que essa crônica não comportaria sequer um milésimo das coisas que ele fez. Criou uma associação de cegos que no último dia 14 completou dezoito anos. Trouxe para Macaé, sobe a batuta irreverente do escultor Joás Passos, um monumento em homenagem a Lois Braille, que contempla a cidade com seus olhos cegos, e vigia a faina do mar, rebentação de crônicas escritas em relevo, sob a tepidez do sol e a brisa suave de fim de tarde. Incansável, Marcos quis mais. Na Câmara, conseguiu dar a um logradouro público da sua cidade natal, o nome do seu mestre mais amado: Professor Edison Ribeiro Lemos. Para dona Dorina, essa fascinante mulher de noventa anos que moveu o mundo todo em luta pelo livro braille, um busto e todas as homenagens da admiração e do carinho de Marcos. E na recém acordada manhã de domingo,os bentevis me contaram o segredo que Marcos ainda não sabe. Em uma breve conferência com Deus, Lois Braille reivindicou uma comenda para Marcos. Nela, o anjo pede que se inscreva: No Rio de Janeiro, em Macaé, vive o meu emissário mais teimoso,mas também o mais obstinado, o mais criativo,o mais preocupado por fazer, desse cantinho do mundo, com seus largos passos, um lugar onde a cegueira exala dignidade e cidadania. Antes de partir, escuto a faina do mar, em ondas que parecem rebentar a eterna pergunta: Até onde vão dar os passos de Marcos? Escrito por Joana às 17h17 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Pequena }Fortuna de Um Homem Pós-moderno Uma homenagem brincalhona ao meu amigo Cláudio Paiva
Pediu-me que eu guardasse os seus pertences, e foi falar com um amigo. Ali, na mesa do bar, fiquei pensando que estava de posse de toda a fortuna de um homem pós-moderno: Um mp4, um isqueiro, uma carteira deCarlton, um celular. Por conta própria, decidi fazer um tour pelas suas trilhas sonoras daquele dia. Cinema, ele é fissurado por cinema.Escutei um pedacinho da trilha de “um Drink no Inferno”,deixei-me ficar uns vinte segundos na escuta de Peter Greenaway,aterrisei na trilha de Arizona Dream,quando ele voltou, para arrecadar suas coisas. Ficamos falando sobre livros, ele está lendo “A Pele da Cultura”, escrito pelo discípulo de McLuhan, Derrick de Kerckove. A pele da cultura somos nós, diz-me ele, resumindo o livro de Kerckove. }E intimamente fico pesando a sua fortuna cultural, amontoada num pequeno quadrado da mesa de plástico. Digo-lhe, enquanto sorvo meu café, que de fato Derrick de Kerckove inventou um belo nome para o seu livro, entretanto,não posso deixar de pensar, por causa dessa metáfora da pele, numa espécie de esgarçamento, de bombardeio, guerra informativa a pulsar ininterruptamente nessa grande teia cibernético-tele-informática que ao mesmo tempo nos comprime e nos alastra. Devagar, atira para o alto sua nuvem de fumaça e espreita por entre as unhas milagrosamente brancas. Prepara sua avalanche de palavras, cachos de frases perigosamente equilibrados no “eu penso”, e me diz:O texto da cltura, essa trama, essa rede, esse engurjitamento, imagem, som, silêncio. Trava para nova baforada e retoma: Eu penso que McLuan vivia no tempo das grandes máximas. “O meio é a mensagem”, e depois essa reelaboração dos seus revisionistas, “O meio é a massagem”...O tempo da gente é realmente o da bricolagem, da descostura, dos universos intervalares... Quero falar, enfiar alguma sílaba interrogativa, mas ele prossegue. “veja bem, o tempo da gente é o do salto, do sobrevôo, como gosta de dizer Pierre Levy. Penso em perguntar se estamos de fato no tempo quântico, se ultrapassamos a mera teoria, mas não há qualquer intervalo onde eu possa enfiar minha pergunta grande. “eu penso”... E entre mais uma chuparada no filtro do cigarro, arrasta aquela idéia dos universos que se tocam, mas não se comunicam. Penso na pequena crônica que eu mesma escrevera outro dia. Ele recupera Ciro Marcondes, Maffezoli,aporta novamente em Derrick de Kerckove. Polifonia. Polimagia. Polilinguagia. É isso. Sorrimos. Ocorre-me, de repente, e eu pergunto: - E o mal-estar da civilização? - Não passa de um belo título, para um livro antigo. Recolhe sua pequena fortuna, me dá um beijo no alto da cabeça, e se vai, para a aula das dez.
Escrito por Joana às 12h26 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Todas as Ilhas Foi assim, com o sol ainda alto no mar, que aportamos em Fortaleza.Mas não era propriamente em Fortaleza que estávamos. Numa pequena faixa litorânea incrustada de hotéis e pousadas, plantamos nossa geografia particular, planeta Dosvox,feito de retas e curvas, quiosques onde repousar e marejar o calor com cerveja gelada, (quase não havia bohemia ali).
Mas boemia, houve muita.Vagabundos de quarta-feira, noite anunciada no “Água na Boca”,vadios de quinta-feira, a arquitetar, na praia do Futuro, suas ilhas imaginárias. A das curvas profundas, a dos desejos ardentes, e aquela distante ilha dos desejos desencontrados, ali, onde o mais improvável caso de amor pode realizar-se plenamente. Você toca, eu canto. Você toca e canta e até o mar se cala para experimentar o ácido de fruto de vez que tem a sua voz. E adivinho o tom de tristeza nos olhos daquele menino que sorri. E vejo, na escutura esbelta daquela mulher, a força do desejo que não se cumprirá. E os sonhos, pousados nos olhos fechados daquele homem, são como asas de pássaro, conduzimdo-o a mundos de poesia perene onde ele espera sua pequena deusa. E na barraca do Joca, tsunami de gente a despejar música e riso por toda aquela faixa de praia,do cimo da noite, eu cantei um dia branco, e prometi sol, e quando o sábado veio,esquecidos do tempo de fazer as malas, arrumar os barcos, levantar âncoras, inventamos todo um planeta novo, pavimentado por risos e músicas, e, em nosso cavalo alado, todo branco, revisitamos todas as ilhas, para em cada uma ecoar o brado da nossa liberdade. E dormimos o estranho sono da despedida, e desatamos nossas mãos, uma por uma, feito conchas marinhas cheias de saudade, enquanto do fundo do mar,nossas ilhas se guardavam, no repouso eterno da espera de outros sonhos, outra quilha de vento a esfarelar, em alguma praia futura, a invenção dos nossos risos, roucos de alegria. Escrito por Joana às 20h39 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Todas as Vozes Na sala de terapia intensiva, somente os aparelhos é que vibram música opaca e fria, matemática dos humores e dos reflexos vitais. No rádio, na internet, no cd player, a um clique, um pressionar de botão, o deslizar do dedo sobre o painel do ipod,a voz ocupa sua faixa de onda, descobrindo-nos uma américa pulsante, alegre, dorida, forte, encantada, lutadora. E me chega à memória, como visita antiga, a lembrança da primeira vez em que escutei sua voz, numa tarde qualquer dos anos oitenta, a música invadindo todos os quartos da casa de estilo simples, plantada na periferia de João Pessoa, num pequeno canto da América ainda manchado pela colonização. Que promessas fazia aquela voz, a dizer-me num canto de todos, que “todo cambia”, por quais estranhos caminhos sonoros me trazia ela fotografias nunca feitas do meu pai, a erguer suas cercas, cantares da minha mãe, a socar na terra a semente de milho, e, no pulsar dorido do seu canto, o sangue vivo de tantas mortes desconhecidas? Nunca mais pude libertar-me do som daquela voz, que envolvia sua tristeza no luto de Alfonsina, indo buscar sons antigos de vento e de sal para seu acalanto. E perdi-me entre os sons da sua serenata para a terra, enquanto acariciava com ternura a areia da minha praia dos Seixas, a pensar na infância da terra dura do sertão. E deixei-me possuir pelos ventos da alma, e quis me desfazer na força da sua voz, a impelir-me para a dança, e fui noite amanhecida na liberdade daquele som e sonhei toda a beleza de uma América livre, tecida na obscuridade, no fogo, na eternidade. E voltei, para encontrar a tristeza de deixar as coisas simples, as coisas queridas, como a porta da frente da minha casa,fechando-se sobre o descuido da infância. E o meu coração, feito corredeira,bebe a agudeza e a gravidade de todas as vozes de Mercedes, e a minha dança descompassada busca todas as mãos, e sinto toda a pele da América em minha pele, e escuto quando ela diz, suavemente, que “toda sangre puede ser canción em el viento”. Na sala de terapia intensiva, somente os aparelhos é que vibram música opaca e fria, matemática dos humores e dos reflexos vitais. Todas as vozes de Mercedes Sosa, como trinados, como gemidos, como lânguidas carícias de amor, como bramidos de parto e de liberdade, como albergues para a tepidez das horas, como marulhar do rio e do mar, povoam para sempre o meu coração, povoam para sempre a América.
Escrito por Joana às 10h36 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Tome Poesia, Tome Prosa de Setembro Quando se pergunta a um físico quântico se é possível viajar no tempo, ele aciona a hipótese dos buracos de minhoca e afirma que sim, sob certas condições, é possível viajar no tempo. -Que condições são essas, perguntará o alucinado por uma viagenzinha no tempo. O quântico limpa seu óculos, e diz, calmamente: - Há que se juntar toda a energia hoje disponível na terra, e multiplicá-la zilhões de vezes. E ante os olhos arregalados do pobre mortal especado na terra, ele prossegue: - tem ainda um outro problema. Se o buraco de minhoca não for bem assessorado, pode misturar os tempos, conectar por exemplo, de forma híbrida, túneis de passado e de futuro. Desanimado, o potencial viajante do tempo sai caminhando pela orla, olhos plantados no céu, onde a lua ainda é nova, e deságua, não se sabe por quais buracos de acaso, no bar Noite Carioca, cidade de Jampa, ali, onde o sol nasce primeiro. E, surpreendam-se. Segurando sua taça de vinho, sem que uma gotinha sequer do tinto escape da boca,e com pequenos quanta de energia, o cara viaja no tempo, embarca num túnel de tempos diversos, e, vinho e mais vinho, nem dor de estômago, nemqualquer mal de mistura de passado e futuro, dá de cara com o físico, a limpar os óculos, também surpreendido. E tome prosa, e tome poesia, porque não há mistério algum nesse fato. Por via da arte poética, embarcando-se numa nave prosoética, esbrange-se para um lugar onde não se precisa do tempo e onde escritor e leitor deixam-se flutuar, fora do corpo, espiando tranquilamente os personagens das suas obras. Zumbis que escutam blus, um Aristarco sorridente por ter driblado a morte, ou a fala milagrosamente maviosa da própria morte a gritar, “espera por mim”! E tome poesia, e tome prosa, porque lá fora há um mundo que espera o maior acelerador de partículas a simular o bigbang, e, dentro da Noite Carioca, o mistério dos séculos se refaz, a arte literária nos desaloja, desorganiza nossos tempos, inventa ilhas de silêncio onde um dado som forja algo, um ritmo, uma flecha, um começo. E eis que a sexta-feira, 18 de setembro, mergulha sua face madruguenta nos coqueiros da praia dos Seixas, mas, no bar, ainda é noite carioca, e na sua voz meio embargada pela mistura de tempos, oudeveria dizer tintos uma mulher cega canta para aquela estrela solitária de quem nunca viu sequer um traço de luz.
*1. Os termos esbrange-se e prosoética nos foram sugeridos pelo poeta goiano radicado em Jampa, José Garcia.
Escrito por Joana às 11h24 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Esse Minuto é Meu
As vezes, como hoje, me acode essa vontade estúpida de conhecer todos os acontecimentos desse minuto, em todo e qualquer lugar. Algo como uma fome, como uma falta, como um desespero. Apuro o ouvido, escuto a rua quase silenciosa, onde vez por outra passa um carro. Ouço o barulho de alguma festa, o som bem alto. Ou seria somente um adolescente espinhento escutando roque? O estourar de uma bomba, uma corneta solitária, alguma criança aproveitando a buzina de alguma partida de futebol, ou de uma solenidade de formatura chata e barulhenta. Hoje tenho vontade disso. De atalhar os acontecimentos, antes de acontecerem. Uma semente quase germinando, uma estrela velha no seu estertor brilhante, o choro de uma criança, um beijo na estação, no aeroporto, um até logo e imediatamente a vontade de ficar, atando a mesma conversa antes desatada. O bater de portas. O abrir de outras portas, atalhar os pés que adentram com fúria, atalhar a faca. Tomar ciência da preparação do redemoinho e deixar-me ir, agachada no seu vórtice, deixar-me ir para um não tempo, um não lugar, onde eu pudesse ver tudo com clareza, onde a vida fosse um cardápio, com todos os acontecimentos enroscados, esperando o toque dos meus dedos para serem. Sorrio de mim mesma. O que tenho em mãos de verdade? Qual é de fato o cardápio que posso folhear, tocar com o dedo de unha recém-pintada, flagrar o fio de um acontecimento e vê-lo desenrolar-se? É isso. Lá fora, tenho os ruídos da rua, e qualquer uma das minhas interpretações poderia desmentir a razão de todos eles. Escrevo. Escrevo sobre o que não posso ter, como se cavasse um buraco, jogasse a terra para o lado e me visse a braços com nova terra, nova terra, sempre.Terra. É isso. Terra onde possa fixar alguma coisa, alguma coisa que floreça como planta. Alguma coisa que se alastre como texto, com começo, meio e final. E na hora mesma em que desejo esse caminho reto me revolto contra isso. A sensação de que foi sempre por um caminho reto que inventei minhas horas, meus minutos.Viver assim essa mentira organizada, em tons cor-de-rosa, viver essa contemplação de quase nenhuma cicatriz, somente pequenas manchas de acne, um tom de pele noticiando uma antiga e rebelde ferida na perna, um vinco na testa por causa de uma queda de infância maior que as outras. Esse minuto é meu. Esse minuto é meu e de mais quase sete bilhões de pessoas no mundo. Eu podia não fazer nada com esse minuto. Podia ficar deitada esperando, escutando a crônica da rua. Podia deixar meus dedos inertes diante do cardápio aberto, deixar o garçon esperando por um minuto, num restaurante estrurgindo de gente. Esse minuto é meu e entretanto me deixo consumir por essa fome de saber o que cada um faz com ele. Essa fome de roer o nó de cada acontecimento desse minuto, deslindar seus fios, suas conexões, inventar um novo acontecer desordenado e fresco, como o cheiro das flores da minha infância, acontecendo no mato, indiferente às moscas e às fezes. O telefone está tocando. Podia não atender. Podia ficar quieta esperando o silêncio da casa de novo. Podia, enquanto sopeso o som do seu trinado, ficar avaliando essa pergunta que trago aqui dentro. Por onde se começa uma história? Por onde se inicia um grito, por onde se interrompe a conversa amena, o falar descuidado, a raiva guardada em sílabas delicadas de mentira? As possibilidades são tantas, tantas, que essa pergunta se torna inútil. - Alô? Digo com a boca cheia de incerteza, os pés do meu espírito resvalando para o minuto seguinte,fibras imprecisas do minuto que passou, esgarçando-se por entre as pequenas frestas do túnel da memória. Escrito por Joana às 11h20 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Lavadeira de Almas Quem é essa mulher que me contempla, franze a testa, corre para dentro e inventaria minha farmácia?
A minha mãe não pode ser, porque minha mãe sempre teve os movimentos bruscos, mesmo quando inventava ataduras para os meus machucados. A minha avó nunca me tocou. Sequer conheci a secura das suas mãos,feita do repetitivo gesto de torcer e bater na pedra a sujidade da roupa do meu avô.
Essa mulher não se alarma com o pranto que eu deixo escorrer, por entre os meus cabelos. Não se importa com as palavras sem nexo que escorregam do fundo da memória, e se espatifam em sílabas, na parede do quarto, feito velhas xícaras de porcelana, armas inúteis de um duelo antigo que nunca aconteceu.
Essa mulher não pode ser a minha filha, porque não posso ver a sua íris, nem o riso que minaria do seu rosto claro, nem a carícia natural que brotaria do seu cabelo comprido para o cansaço do meu rosto. Tampoucopode ser da minha filha mais velha, essa economia de gestos,essa invenção de cataplasmas para abafar o bramir do vento, essa quase cercadura sem qualquer palavra de prece em torno de mim.
Essa lavadeira que dispensa minhas vestes, despreza minha pele e põe o meu espírito, feito pano de prato usado, no seu molho de ungüentos sem cheiro e sem calor, essa lavadeira de almas, de quem sequer suspeito a secura das mãos, forjada no esfregar e bater da sujidade dos espíritos que torce,essa mulher só pode ser filha da casa da solidão, lá onde habita o silêncio, a inércia, os velhos baús esquecidos e vazios, o repouso completo do corpo nas tisanas do nada.
Nada. Nenhum laivo de surpresa, de alegria, de pena ou mágoa, nada perturba essa mulher, enquanto sacode o meu espírito lavado e apronta mais um cataplasma para o distante sussurro do vento.
Escrito por Joana às 11h58 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Sonhos de Lua Nova Do meu Diário Íntimo para Gabi
Você não sabe, mas foi como no meu sonho. Você segurando minha mão, você me conduzindo pela porta leste, seus olhos maravilhados com o brilho das velas, sua voz a espalhar seus pequenos diamantes entre os elementais, cada um disputando aqueles farelos deliciosos de sílabas,grandes espirais do seu riso limpo e cristalino, que você mandou para a lua nova,sem sequer suspeitar da rapinagem que o vento fazia, dos bocados de riso seu que caíam das bordas do espaço. Fizemos nossa pequena jornada com cuidado, seus pés à frente dos meus, pousando delicadamente no capim cidreira, nos pequenos montes de terra. Desviamos o cume do velho formigueiro e, um passo atrás do seu passo, meu dedão esquerdo foi novamente vítima das formigas guardiãs, desconfiadas do meu esmalte quase sem cor. Nossa marcha, a desenhar na terra do quintal a trama da nossa dança íntima. E, ao modo dos pequenos tambores, a contar para a terra o segredo do nosso amor. Você não sabe, mas foi como no meu sonho. Nós duas plantadas junto da pedra da nossa escolha, a suavidade do seu abraço a tecer para mim toda a circularidade da sua ternura, tão íntegra, tão doce, tão plena. Naquele instante, escutei todas as portas de dentro a se destrancarem, e deixei-me inundar pela tepidez do calor da sua pele, pelo pulsar suave do seu coração,e juro, briguei feio com o vento para guardar só pra mim, o cheiro bom do seu cabelo. Naquele instante, por arte da chama daquela vela amarela que você escolheu para si, vi toda a delicadeza dos elos que nos ligam.E naquele lugar só nosso, sem relógios nem agendas, com a lua nova a preparar sua carta de intenções de luz, refizemos nossa jura de eterno querer bem,que se renovará, a cada lua nova. E você sabe, porque não deve haver segredos entre nós, vou lhe contar uma coisa que eu descobri, antes das minhas portas se fecharem para o sono da noite. A lua nova tem inveja de nós!E escuto você, já de dentro do sonho, esfarelando meu segredo com suas palavras sábias inundadas de riso: E nós, você e eu, temos inveja da lua cheia! Escrito por Joana às 16h38 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Os Sonhos que eu Quero Eu não quero outros sonhos, senão aqueles que eu possa inventar a cada hora, pequenos sonhos que venham pousar na concha da minha mão, forjados de matéria tão fluida como o cheiro do dia, o gosto da brisa, a delicadeza de cada pequena onda quebrada na beira da praia. Eu não quero outros sonhos, senão aqueles que eu possa equilibrar no dorso da pequena árvore curvada à frente da minha casa, sonhos que não ousem senão, ligeiros voos até o ninho dos bem-te-vis, na orla da mata. Não quero outros sonhos, senão os que eu possa urdir com palavras tão simples como as dessa crônica, curtas frases, enformando delicadas vontades, como o desejo do café da tarde, a calma da varanda, o assaí na tigela, o escuro da biblioteca, o primeiro minuto do anoitecer, a antecippação do abraço, a força do círculo dos tambores, a lua cheia. E quando for hora de dormir, quero que salte da cova do sono, feito preá do mato, o sonho de infância, de um dia claro, com meu pai estalando de riso, nós dois sentados na nossa caverna, tendo à nossa frente o seu chapéu, cheio de umbus maduros, e nos nossos corações, o calor do nosso afeto. De novo eu lhe perguntarei de que é feita a terra e ele me dirá que a terra não passa de farelo de pedra.Rolando o caroço do umbu por entre os dentes,pergunto então de que é feito o vento. O meu pai, fitando o teto de pedra, engrossará a voz para me contar o segredo de que o vento não passa de uma chuva seca. O dia, o sonho, eu e o meu pai, a chuva lá fora e uma adulta que brota de dentro, com sua pergunta tisnada de saudade: - pai, a felicidade, de que é feita? A fala do meu pai, resvalando para o anteparo da noite, para a beira da cova do sono: A felicidade,é um pedaço de terra do interior, que a gente nem sempre se lembra de visitar e de adubar.
Escrito por Joana às 18h21 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Três de Agosto Não vou telefonar, nem mandar aquele mail padrão, nem aquele ramo de edelvais de plástico que você me mandou no meu aniversário. Telemensagem eu detesto, e sei que você também. Aquelas frases açucaradas, com um fundo musical duvidoso, não faria isso com você. Quero aportar aí ainda pela manhã, com os cabelos úmidos de orvalho, e mesmo sabendo que você só acorda depois das dez, quero trazer para casa a primeira orquídea desabrochada na montanha, saudar a família do méxico, beber na cozinha o café amargo e mesmo sem escovar os dentes, abrir vagarosamente a porta do seu quarto e sufocar seus gritos de socorro com meu abraço de corpo inteiro. Já sei que você se esquecerá que é um príncipe, e feito menino do jardim de infância, puxará meu cabelo e depois se arrependerá. Decifrará as linhas do meu rosto, franzirá levemente a testa, por causa daquela mancha de sol, quase do tamanho de uma colher de arroz, do lado direito da minha bochecha. E enquanto você veste a sua indumentária de príncipe,bafejo todos os cantos da casa com os sonhos novinhos em folha que inventei pra você. E suspendemos o dia no toldo dos nossos desejos, e de mãos dadas, pelas ruas brancas de frio, mordiscamos os biscoitos amanteigados e sorrimos descuidados, até que chega a tarde, e agora sentados lado a lado, na vitória tocada por cavalos tranqüilos e o guia que nos fala de reis e castelos, tecemos somente para nós, a teia do nosso silêncio cúmplice. E anoitece. Despedida. Desfraldamos os versos de dona Cecília, e, de cabeças unidas, você lê para mim: Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve...” E eu, já recolhida no braço de vento que me levará para casa, invento música para os versos que escolhi: “"Permita que eu feche os meus olhos, pois é muito longe e tão tarde! Pensei que era apenas demora, e cantando pus-me a esperar-te. Permita que agora emudeça: que me conforme em ser sozinha. Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina. Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo". E agora, feita pequeno besouro em mar bravio, experimento desenhar no ar, a assinatura do nosso afeto, o brasão da nossa amizade,selo da ternura que te dedico, neste dia 3 e em todos os outros: “Teadorum”! Escrito por Joana às 06h51 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] O Beijo da Mulher Blogueira Aquela madrugada, depois de havermos mosquejado por todos os blogs da cidade, depois de experimentarmos, de degrau em degrau, a silabaria duvidosa das cachaças de bordo, quase de saída, da porta do último blog, você me fitou com aquele seu olhar de ponta de tesoura (minha ilusão de ótica só me faz pensar para você um olhar assim, de ponta de tesoura), pois você me olhou com aquele olhar de ponta de tesoura e disse de um sorvo, o último do seu cálice, disse de um sorvo para eu não me atrever a tocar no poeta. As palavras caindo queixo abaixo, você disse que com a poesia eu podia ficar, mas não me atrevesse a tocar no poeta. Desesperada, corri para a tenda onde a poesia habita, prevendo catástrofe, prevendo desgraças, mas ali, encontrei somente o sono desamparado daquele que só sabe fazer versos, mesmo quando dorme. Naquela hora, fosse por pressentimento, fosse por respeito, não ousei tocá-lo, mas bebi gota a gota, dos seus lábios entreabertos, o hálito novo da sua poesia. Escrito por Joana às 18h15 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Desafinado Desafinado. Ele canta desafinado. Mas ontem cantou pra mim, enquanto eu escutava a percussão da chuva. Cantou pra mim como quem corre do violão, chegando antes dos acordes, encontrando a última formação do dó em outra passagem da música aberta na boca. Cantou pra mim, enquanto o seu sorriso, entidade autônoma, pairava na quilha dos dentes. Cantou pra mim, com a liberdadde daqueles que só querem estar felizes, abraçados ao dorso do violão, o som invadindo a casa, chegando ao aquário dos peixes, felizes também, na sua acrobacia. Cantou e cantou. E mesmo aquela frase final com gosto de tragédia, parecia um arranjo floral, molhado da chuva. “Pode ser até amanhã, cedo claro feito dia, mas nada do que me dizes, me faz sentir alegria”. E estávamos alegres e descuidados, desmentindo os tons do jornal, , desmentindo o tempo de chuva, estridências de sorrir, por entre as pausas do seu tocar. Cantou Marias e Clarices, milagrosamente equilibrado ao ritmo do violão.Decididamente melhorou no samba, quando pediu aquele cheirinho de amor à morena Flor. Depois veio a regra três, e senti, senti, ele dando o seu melhor.E compreendi. Quando ele canta, desafinado, tudo no seu mundo se arranja em estilos de felicidade só sua, que ele repartiu comigo, em grossas fatias. Escrito por Joana às 11h34 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Diploma Já A luta dos jornalistas não é tecida somente com lágrimase gritos de protesto. No solar Tambauzinho, um dos prédios mais aconchegantes da querida Jampa, Jornalistas passaram todo esse dia de domingo reunidos, preparando o jornalzinho Diploma Já, que será distribuído em nosso ato público, dia 9 dejulho. Colaboração, trabalho, cerveja e macarrão. Essas são algumas das palavras chave que marcaram nosso encontro. A equipe de redação foi composta por mim e pela jovem e ousada jornalista Cecília Noronha. Nosso programador visual, Jandyr Rocha de Oliveira, enquanto não vinha o computador servido com coreodraw, ia abastecendo os copos, com a cervejinha adquirida pelo grande camarada, aqi representando a Fenarjo, nosso jornalista Verber, o grande do Quilombola. Lande Seixas, presidente do nosso sindicato dos jornalistas profissionais da Paraíba, fazia as vezes do repórter de plantão, aquele chato que mesmo num dia de domingo, liga pro deputado, pro vereador, pro intelectual, e cobra um protesto lúcido de cinco linhas. Eu, enquanto escrevo esse post, não posso me livrar do sal das lágrimas dos jornalistas com o fim da exigência do diploma. Quase posso dizer que para nós, jornalistas, o dia dezessete de junho somente começou no princípio da noite. E comoeçou como perda. Como retrocesso. Como deglutição às avessas de quarenta anos em que tínhamos um lugar, uma profissão, um papel moeda que atestava nossa existência. Que fotografia poderíamos fazer desse dia? Que texto? Que imagem televisada? Não há simetria possível nessas horas,nesse tempo surrupiado de nós, a partir de uma canetada de diplomados juristas, com vários selos e certificados, atestando a assinatura, a filiação direta aos poderosos que controlam a mídia nesse país, e que podem ser contados nos dedos da minha mão aberta. O macarrão, ainda não chegou, mas ainda há esperança de que da cozinha de Lau Siqueira, o poeta e cozinheiro, o não-jornalista, ainda saia massa com molho exótico. Escrito por Joana às 13h39 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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