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Barrados no Braille | |||||||||||||||
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Natais da Infância
Vinte e seis de dezembro, final de tarde e papai Noel veio de novo me visitar. Eu nem estava esperando. Cabelo desarrumado, pés descalços, meu vestido velho que eu mais gosto. Foi somente o sol se pôr e ele aportou em casa, sentou-se no meu sofá azul e ficamos curtindo aquele momento de quando alguém chega e quer descansar, olhando para o meu arranjo natalino, ou para a varanda, adivinhando o azul do mar, lá no fundo. E aí perguntou, como qualquer pessoa perguntaria: - Como foi seu natal, filha? Não era a mesma voz do papai noel da outra crônica. Voz descansada, calma, voz como a do meu pai, naquelas tardes em que eu me ajoelhava para lavar seus pés, e ele me contava das coisas do dia. - Foi um natal branco, eu disse. Com o núcleo menor e mais chegado da minha família. Não precisei dizer-lhe que não haveria café, na xícara de porcelana. Eu queria falar. Falar de outros natais, da minha infância, natais que curiosamente vinham me visitar, com seus sonhos encantados e vivos. No natal, nós deixávamos a escola e voltávamos para casa. E trazíamos conosco os sonhos de uma cultura urbana, incrustados em nossas almas infantis, cinco, seis, sete meninos e meninas deitados em suas alvas redes, chinelinhos encostados à janela aberta para o vento da noite, tagarelices sobre o velhinho que nos traria presentes, minha angústia por pensar no tamanho da minha chinela, o que poderia caber dentro dela? Rebentávamos de conversa e riso, até adormecermos. E o dia acordava milagrosamente o coral dos pássaros, o frescor da manhã, o cheiro do milho a brotar, de dentro da terra, um dia como os outros, nossos chinelos comportadamente à espera dos nossos pés, nossos chinelos onde sabíamos, sem mágoa nenhuma, não haver presente algum. Um dia como os outros, com minha mãe servindo nosso café com leite, nossas arengas de infância, a formação do pequeno batalhão que caminharia rumo à enorme caverna de sombra, no roçado do meu pai. O que mudou em nós, Papai Noel? Por qe damos a esse dia, o peso de tantos desejos? Desejos que continuam pesando, apesar das máquinas registradoras, do último cheque assinado, do limite do cartão de crédito encerrado? Sorrimos os dois e eu ainda queria falar. Nesse natal, jantamos antes da meia noite, e Gabi abriu seus presentes, o riso infantil inundando a casa com seus guizos. Do fundo da minha memória, os natais da infância trouxeram-me o cheiro bom das nossas redes e a música desafinada de risos de meninos e meninas a sonhar com Papai Noel, enquanto a noite ruminava outra manhã, lavada de orvalho, e onde as serras esperavam para repetir, o eco do primeiro aboio do vaqueiro Inácio, a tocar os bois para o mato. Ficamos por um longo tempo calados, escutando a música daqueles natais de infância. O relógio, enciumado daquele nosso enleio, gritou as seis horas e nosso encanto se desfez. Fitei o espelho do fundo do corredor e vi a sombra do riso de Papai Noel, tão antigo como o riso do tempo, na cova do espaço.
Escrito por Joana às 18h59 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Portas de Ir e Voltar
Sentir o cheiro do mar, dali do terraço da casa de Ronaldo, era como umpresente, uma carícia, embalada pelos sininhos de vento, pelas nossas risadas alegres, por cada conto que se lia, a meada das palavras a entreabrir a porta que cada um plantara no solo da sua narrativa, portas entreabertas para o mistério, portas de par em par, abertas para a luz, possibilidades de portas, portas fechadas, a guardarem a opressão dos dias, janelas cravadas a força, para que se pudesse ver, esse estranho diálogo que se tece dentro do amor, e que leva o coração a clamar por uma porta aberta, dentro do peito. Enquanto as palavras descansavam sua leveza na concha do meu ouvido, eu sentia o cheiro do mar e pensava na mania que sempre me acompanhou, desde a infância, mania de pensar em portas, portas plantadas nos lugares mais inusitados. Uma porta plantada no meio do redemoinho, que me sugasse para um lugar de silêncio e de paz; uma porta qualquer, aberta no meio do caminho para a escola, e que me estendesse uma estradinha lisa, salpicada de pedrinhas, que me levasse de volta pra casa. Uma porta que, no meio da aula de neurocognição, rangesse suavemente sua dobradiça invisível e me tragasse para uma aldeia simples, de pescadores, numa manhã acabada de começar, e onde Jupi, aquele belo cão, envergando a sua elegância de pelos bem comportados, viesse me dar bom dia com o seu focinho orvalhado. Sobretudo pensei no mar, no intervalo do ir e vir das suas ondas, como portas a abrirem-se, para dentro e para fora. Pensei no mar, e quis que o seu cheiro me levasse naturalmente para a quentura de um abraço líquido, portas de ir e voltar, onde me fosse dado inventar, para o meu corpo, uma segunda pele, rebordada com conchas e escamas e pequenos pedaços de junco amolecidos pela carícia da água. Portas de ir e voltar, onde me fosse dado inventar, para o coração, música de sonoridade morna e suave, como o rufar das pequenas ondas a lamberem o muro de pedra. Portas de ir e voltar, como o balanço na mangueira da infância, portas de ir e voltar, que me permitissem fugir e voltar depois, sem que se desse por isso. Escrito por Joana às 09h08 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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