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O Último Triunfo do Mercado Midiático, ou Requiem para o meu Diploma

A aprovação pelo Supremo, do fim da exigência do diploma para o exercício da profissão de Jornalista, caiu ontem como uma bomba nas cabeças de dezenas de milhares de profissionais Brasil afora.Como se houvéssemos perdido o chão, como se nos fosse retirado de repente, sem qualquer aviso, um lugar espaciotemporal onde nos identificávamos, onde nos reconhecíamos, individual, coletiva e juridicamente.

Naqueles primeiros momentos de impacto da notícia, o meu sentimento maior era de desolação. Pensei na curta vida do diploma, e, na minha própria vida de jornalista, engolfada dentro desses quarenta anos.

Em 1969, ano da aprovação da Lei de Imprensa e da exigência do diploma, dentro dos meus doze anos, eu já pensava vagamente em ser jornalista, e, posso dizer, pensava mesmo como os magistrados do Supremo, pois já gostava de escrever, e de ler, e julgava, como eles, que esses eram atributos suficientes para ser um bom jornalista.

Doze anos depois, cabelo solto ao vento, indisciplina alegre na cara, pés descalços a correr pela orla de Tambaú, ao lado dos meus colegas, fizemos o rito simbólico de atirar para as águas, o pequeno canudo representando o diploma, que havíamos recebido das mãos do reitor, na nossa solenidade de formatura, numa noite do princípio de agosto de 1981.

Éramos um bando estranho, forjado por uma escola crítica, Frankfurt-Jampa, atados pela idéia de um jornalismo engajado, desempregados, ora felizes ora medrosos, espantados com os récem-fantasmas dos porões da ditadura ainda vigente, atiçados por recomeçar, no batente, a luta por uma sociedade democrática que tínhamos inventado, nas suas vozes, nos seus gestos, nas suas bandeiras, na tribuna universitária.

Naquela noite, nosso dinheiro só dava para cuba-libre, misturada ali mesmo no calçadão, espolcando em brindes e brados, em descuidado intervalo, antes de vir o batismo da redação, antes de sermos, potencialmente, jornalistas.

Tímidos focas, ávidos por começar, ingressamos nas redações, e então, Meritíssimo juiz, conhecemos as trincheiras entre a liberdade de expressão e a lógica do capital, aprendemos todos os dias, o exercício do jornalismo cidadão, engajado, esboçado em nossos textos, laudas e laudas que depois eram revisadas, riscadas, formatadas à lápis e a régua, na diagramação do jornalismo isento, neutro, higienizado dos excessos de liberdade e de expressão, infantilidades de meninos e meninas de escola, que era preciso limar.

Vez em quando, entre um sanduíche comido à pressa e a cobertura de uma passeata de sem-terras, vinha o gosto dos dias descuidados dos bancos da escola, onde as lições dos nossos mestres ganhavam agora um novo tom de verdade, a verdade de que na prática jornalística daqueles dias, nas apertadas trinta linhas de cada fatia noticiosa, termos como democracia, liberdade de expressão, cidadania, não passavam de espécies de marca-texto para a nossa memória estudantil.

Aprendemos, em cada dia, a recomeçar, e a produzir uma espécie de brecha, entre o que tínhamos aprendido na escola e na prática das redações. Pouco a pouco, como um cicatrizante, uma ponte entre essas duas realidades se forjou. Aprendemos a lidar com dois senhores. Aquele do nosso ideário e aquele bravio senhor do mercado.

E eis que agora este senhor, o do mercado, renovado sob o manto da justiça, exibe o seu último triunfo. O jornalismo é de todos, da liberdade de expressão, da arte e da literatura! Brada a suprema corte com suas oito bocas para o deleite deste senhor, de largas comportas, a exibir seu último triunfo em letras garrafais, em imagens animadas de câmeras e flashs.

E mesmo agora, quase cinqüenta linhas escritas, meu estado ainda é de desolação. Onde, o chão que me forjou?

No quadro da parede, o diploma da morte de todos aqueles anos. Quase posso ouvir o troar na porta da frente. Mulheres e homens livres que chegam, ávidos por dizer, na cena midiática, ávidos por lavar, nas cozinhas do jornalismo, mágoas, alegrias e vontades. E eis que se me aclara a primeira lição do dia: Os jornalistas não são mais uma categoria. Os jornalistas, graças ao senhor do mercado, rebatizados pelo vigoroso toque da caneta da Suprema Corte, realizam o sincretismo profissional onde todos cabem, nessa alegre democracia de sotaques e estilos, nessa aberta plataforma colaborativa dos cidadãos do mundo!    

 



Escrito por Joana às 14h38
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