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Barrados no Braille | |||||||||||||||
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Vinte e Um de Junho Mais três dias, e os ponteiros cosmológicos encostarão no segundo zero dos 52 anos dessa minha existência física. E por que será que essa alegria que me assola, empresta-me todos esses punhais? Por que parecem-me habitar, antigas vozes de outros templos, ressoantes murmúrios de células ínfimas de mim, deixadas para trás, na velha cozinha das minhas vidas passadas? Por que será que me acode esse gosto de réptil na boca do estômago, por que esse afogamento brutal e desnecessário em violento e mar salgado de navegações esquecidas? Procuro na poesia, os lenços limpos da casa da minha mãe, guardados religiosamente nas camisas engomadas do meu pai. Parece que dentro de mim se preparam tempestades, porque me vem a lembrança de haver esbarrado no velho pilão de milho e se revifica aquele hematoma roxo na coxa direita.e me prostra a vívida dor de quando me picou, no oitão de casa, a lagarta de fogo que disputava sua loca com o dedão do meu pé esquerdo. Vou fugir. Deixarei todas as portas inventadas a baterem em uníssono, socadas pelos ventos de infância. Por que não se inventou ainda aquele jeito da física teórica de enrugamento de espaço? Século XXI, anos quarenta. Inventou-se um jeito de reorganizar minhas velhas células na primeira viagem lunar desse século. Filhas minhas, esqueçam a última cláusula do meu testamento. Não precisam gastar a poupança do crematório. Entre marés lunares, me revolverei entre gelo e terra movediça e habitarei o feliz esquecimento do que fui, terei sido e serei, num alegre silêncio de fundo de lua. Escrito por Joana às 11h58 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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