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Barrados no Braille | |||||||||||||||
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Banho na Chuva de Sábado Acho que essa chuva, que desde a madrugada, discursa para uma cidade de mar é de árvore, a crônica das suas águas, acho que essa chuva, que sob a batuta do tempo, ora canta em pianíssimo, ora rebenta em força sobre os telhados, acho que essa chuva merece uma crônica minha. Uma crônica que eu sei amarrada pela linearidade da escrita,uma crônica pesada da impossibilidade de deslizar, com infantil imprudência,saltando aqui e além, por todas essas cordas d’água. Uma crônica aberta a todos os sabores da chuva, uma crônica disposta a enfrentar os vírus e aprender com eles, o ser e o não-ser da criação. Uma crônica tola, vestida com exclamações, gritos inclnclusos, espaventos de água na fachada do palácio; um resto de frases tênues, atirando longe o molho dos rictos de razão, inventando lugares onde nenhuma câmera flagrou ainda beijos molhados, escorrendo queixo abaixo, aquecendo a camiseta ali, perto do coração. Uma crônica pronta a escavar,todas as terras do saber estabelecido, para encontrar, no centro da cúpula da paixão, a “pedra de Heracléia”, oferta para essa chuva de sábado, pulsar criativo da poesia primordial, banhando-se impunemente no caldal das águas. E vestida de nada, feito “Maria das águas”, bebo até o último gole, essa alegria inocente de escutar a chuva. Música de águas que eriçam meus seios e engrossam meu ventre, de onde brotam criaturas novas, frutos de pura alegria, invenção de vírus inclassificáveis,tatuados no meu espírito, pela carícia da chuva de sábado. Escrito por Joana às 11h39 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Quase Nada, ou Sinfonia para um pôr-de-sol Desse último pôr-de-sol a que assistes embevecido, não verei os tons de vermelho púrpura, de laranja, não assistirei à coreografia desse iluminar. Escutarei somente as notas do bolero, e nalgum intervalo, entre uma nota e outra, pressentirei o rufar suave da tua emoção, no inspirar e expirar das tuas narinas. Sujeitada à palavra, pescrutarei outros sóis a se pôr, resvalando pelos túneis da memória, reinventando fios de narrativas de Proust ou de Gide, e como Gertrudes, me alimentarei da pura emoção, aquela que se tece não se sabe onde, neurônio tocando neurônio, forjando sílaba por sílaba, o solo do afeto genuíno, sem qualquer feição visível, como se fora tépida sauna para o deleite da alma, com seus aromas sutis, suas vagas sugestões de sonoridade, suas sensações como a imprimir suaves carícias mornas naquilo que penso ser a pele do meu espírito. Desvestida de mim, possuída pela ausência das formas concretas, quase me assusto ao escutar a explosão da nota final do bolero e me assusto mais, ao ver pousada na minha quase-mão, a quentura de uma lágrima tua. E nessa quase noite, acode-me esse pensamento absurdo e claro, de que, a tua lágrima pousada sobre a minha quase mão, anuncia o vislumbre de dois mundos que se tocam, mas não se reconhecem. Escrito por Joana às 20h02 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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