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Desafinado

Desafinado. Ele canta desafinado. Mas ontem cantou pra mim, enquanto eu escutava a percussão da chuva. Cantou pra mim como quem corre do violão, chegando antes dos acordes, encontrando a última formação do dó em outra passagem da música aberta na boca. Cantou pra mim, enquanto o seu sorriso, entidade autônoma, pairava na quilha dos dentes. Cantou pra mim, com a liberdadde daqueles que só querem estar felizes, abraçados ao dorso do violão, o som invadindo a casa, chegando ao aquário dos peixes, felizes também, na sua acrobacia. Cantou e cantou. E mesmo aquela frase final com gosto de tragédia, parecia um arranjo floral, molhado da chuva. “Pode ser até amanhã, cedo claro feito dia, mas nada do que me dizes, me faz sentir alegria”. E estávamos alegres e descuidados, desmentindo os tons do jornal, , desmentindo o tempo de chuva, estridências de sorrir, por entre as pausas do seu tocar.

Cantou Marias e Clarices, milagrosamente equilibrado ao ritmo do violão.Decididamente  melhorou no samba, quando pediu aquele cheirinho de amor à morena Flor. Depois veio a regra três, e senti, senti, ele dando o seu melhor.E compreendi. Quando ele canta, desafinado, tudo no seu mundo se arranja em estilos de felicidade só sua, que ele repartiu comigo, em grossas fatias.



Escrito por Joana às 11h34
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