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Os Sonhos que eu Quero

Eu não quero outros sonhos, senão aqueles que eu possa inventar a cada hora, pequenos sonhos que venham pousar na concha da minha mão, forjados de matéria tão fluida como o cheiro do dia, o gosto da brisa, a delicadeza de cada pequena onda quebrada na beira da praia.

Eu não quero outros sonhos, senão aqueles que eu possa equilibrar no dorso da pequena árvore curvada à frente da minha casa, sonhos que não ousem senão, ligeiros voos até o ninho dos bem-te-vis,  na orla da mata.

Não quero outros sonhos, senão os que eu possa urdir com palavras tão simples como as dessa crônica, curtas frases, enformando delicadas vontades,  como o desejo do café da tarde, a calma da varanda, o assaí na tigela, o escuro da biblioteca, o primeiro minuto do anoitecer, a antecippação do abraço, a força do círculo dos tambores, a lua cheia.

E quando for hora de dormir, quero que salte da cova do sono, feito preá do mato, o sonho de infância, de um dia claro, com meu pai estalando de riso, nós dois sentados na nossa caverna, tendo à nossa frente o seu chapéu, cheio de umbus maduros, e nos nossos corações, o calor do nosso afeto.

De novo eu lhe perguntarei de que é feita a terra e ele me dirá que a terra não passa de farelo de pedra.Rolando o caroço do umbu por entre os dentes,pergunto então de que é feito o vento. O meu pai, fitando o teto de pedra, engrossará a voz para me contar o segredo de que o vento não passa de uma chuva seca.

O dia, o sonho, eu e o meu pai, a chuva lá fora e uma adulta que brota de dentro, com sua pergunta tisnada de saudade: - pai, a felicidade, de que é feita?

A fala do meu pai, resvalando para o anteparo da noite, para a beira da cova do sono: A felicidade,é um pedaço de terra do interior, que a gente nem sempre se lembra de visitar e de adubar.

  



Escrito por Joana às 18h21
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Três de Agosto

Não vou telefonar, nem mandar aquele mail padrão, nem aquele ramo de edelvais de plástico que você me mandou no meu aniversário.

Telemensagem eu detesto, e sei que você também. Aquelas frases açucaradas, com um fundo musical duvidoso, não faria isso com você.

Quero aportar aí ainda pela manhã, com os cabelos úmidos de orvalho, e mesmo sabendo que você só acorda depois das dez, quero trazer para casa a primeira orquídea desabrochada na montanha, saudar a família do méxico, beber na cozinha o café amargo e mesmo sem escovar os dentes, abrir vagarosamente a porta do seu quarto e sufocar seus gritos de socorro com meu abraço de corpo inteiro.

 Já sei que você se esquecerá que é um príncipe, e feito menino do jardim de infância, puxará meu cabelo e depois se arrependerá. Decifrará as linhas do meu rosto, franzirá levemente a testa, por causa daquela mancha de sol, quase do tamanho de uma colher de arroz, do lado direito da minha bochecha.

E enquanto você veste a sua indumentária de príncipe,bafejo todos os cantos da casa com os sonhos novinhos em folha que inventei pra você.

E suspendemos o dia no toldo dos nossos desejos, e de mãos dadas, pelas ruas brancas de frio, mordiscamos os biscoitos amanteigados e sorrimos descuidados, até que chega a tarde, e agora sentados lado a lado, na vitória tocada por cavalos tranqüilos e o guia que nos fala de reis e castelos, tecemos somente para nós, a teia do nosso silêncio cúmplice.

E anoitece. Despedida. Desfraldamos os versos de dona Cecília, e, de cabeças unidas, você lê para mim: Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve...”

E eu, já recolhida no braço de vento que me levará para casa, invento música para os versos que escolhi: “"Permita que eu feche os meus olhos,

pois é muito longe e tão tarde!

Pensei que era apenas demora,

e cantando pus-me a esperar-te.

Permita que agora emudeça:

que me conforme em ser sozinha.

Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.

Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,

e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo".

E agora, feita pequeno besouro em mar bravio, experimento desenhar no ar, a assinatura do nosso afeto, o brasão da nossa amizade,selo da ternura que te dedico, neste dia 3 e em todos os outros: “Teadorum”!



Escrito por Joana às 06h51
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