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Lavadeira de Almas

Quem é essa mulher que me contempla, franze a testa, corre para dentro e inventaria minha farmácia?

 

A minha mãe não pode ser, porque minha mãe sempre teve os movimentos bruscos, mesmo quando inventava ataduras para os meus machucados. A minha avó nunca me tocou. Sequer conheci a secura das suas mãos,feita do repetitivo gesto de torcer e bater na pedra a sujidade da roupa do meu avô.

 

Essa mulher não se alarma com o pranto que eu deixo escorrer, por entre os meus cabelos. Não se importa com as palavras sem nexo que escorregam do fundo da memória, e se espatifam em sílabas, na parede do quarto, feito velhas xícaras de porcelana, armas inúteis de um duelo antigo que nunca aconteceu.

 

Essa mulher não pode ser a minha filha, porque não posso ver a sua íris, nem o riso que minaria do seu rosto claro, nem a carícia natural que brotaria do seu cabelo comprido para o cansaço do meu rosto.

Tampoucopode ser da minha filha mais velha, essa economia de gestos,essa invenção de cataplasmas para abafar o bramir do vento, essa quase cercadura sem qualquer palavra de prece em torno de mim.

 

Essa lavadeira que dispensa minhas vestes, despreza minha pele e põe o meu espírito, feito pano de prato usado, no seu molho de ungüentos sem cheiro e sem calor,   essa lavadeira de almas, de quem sequer suspeito a secura das mãos, forjada no esfregar e bater da sujidade dos espíritos que torce,essa mulher só pode ser filha da casa da solidão, lá onde habita o silêncio, a inércia, os velhos baús esquecidos e vazios, o repouso completo do corpo nas tisanas do nada.

 

Nada. Nenhum laivo de surpresa, de alegria, de pena ou mágoa, nada perturba essa mulher, enquanto sacode o meu espírito lavado e apronta mais um cataplasma para o distante sussurro do vento.

 

 



Escrito por Joana às 11h58
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