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Tome Poesia, Tome Prosa de Setembro

Quando se pergunta a um físico quântico se é possível viajar no tempo, ele aciona a hipótese dos buracos de minhoca e afirma que sim, sob certas condições, é possível viajar no tempo.

-Que condições são essas, perguntará o alucinado por uma viagenzinha no tempo. O quântico limpa seu óculos, e diz, calmamente: - Há que se juntar toda a energia hoje disponível na terra, e multiplicá-la zilhões de vezes.

E ante os olhos arregalados do pobre mortal especado na terra, ele prossegue: - tem ainda um outro problema. Se o buraco de minhoca não for bem assessorado, pode misturar os tempos, conectar por exemplo, de forma híbrida, túneis de passado e de futuro.

Desanimado, o potencial viajante do tempo sai caminhando pela orla, olhos plantados no céu, onde a lua ainda é nova, e deságua, não se sabe por quais buracos de acaso, no bar Noite Carioca, cidade de Jampa, ali, onde o sol nasce primeiro.

E, surpreendam-se. Segurando sua taça de vinho, sem que uma gotinha sequer do tinto escape da boca,e com pequenos quanta de energia, o cara viaja no tempo, embarca num túnel de tempos diversos, e, vinho e mais vinho, nem dor de estômago, nemqualquer mal de mistura de passado e futuro, dá de cara com o físico, a limpar os óculos, também surpreendido.

E tome prosa, e tome poesia, porque não há mistério algum nesse fato. Por via da arte poética, embarcando-se numa nave prosoética, esbrange-se para um lugar onde não se precisa do tempo e onde escritor e leitor deixam-se flutuar, fora do corpo, espiando tranquilamente os personagens das suas obras.

Zumbis que escutam blus, um Aristarco sorridente por ter driblado a morte, ou a fala milagrosamente maviosa da própria morte a gritar, “espera por mim”!

E tome poesia, e tome prosa, porque lá fora há um mundo que espera o maior acelerador de partículas a simular o bigbang, e, dentro da Noite Carioca, o mistério dos séculos se refaz, a arte literária nos desaloja, desorganiza nossos tempos, inventa ilhas de silêncio onde um dado som forja algo, um ritmo, uma flecha, um começo.

E eis que a sexta-feira, 18 de setembro, mergulha sua face madruguenta nos coqueiros da praia dos Seixas, mas, no bar, ainda é noite carioca, e na sua voz meio embargada pela mistura de tempos, oudeveria dizer tintos uma mulher cega canta para aquela estrela solitária de quem nunca viu sequer um traço de luz.

 

*1. Os termos esbrange-se e prosoética nos foram sugeridos pelo poeta goiano radicado em Jampa, José Garcia.

 



Escrito por Joana às 11h24
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Esse Minuto é Meu

 

As vezes, como hoje, me acode essa vontade estúpida de conhecer todos os acontecimentos desse minuto, em todo e qualquer lugar. Algo como uma fome, como uma falta, como um desespero.

Apuro o ouvido, escuto a rua quase silenciosa, onde vez por outra passa um carro. Ouço o barulho de alguma festa, o som bem alto. Ou seria somente um adolescente espinhento escutando roque? O estourar de uma bomba, uma corneta solitária, alguma criança aproveitando a buzina de alguma partida de futebol, ou de uma solenidade de formatura chata e barulhenta.

Hoje tenho vontade disso. De atalhar os acontecimentos, antes de acontecerem. Uma semente quase germinando, uma estrela velha no seu estertor brilhante, o choro de uma criança, um beijo na estação, no aeroporto, um até logo e imediatamente a vontade de ficar, atando a mesma conversa antes desatada.

O bater de portas. O abrir de outras portas, atalhar os pés que adentram com fúria, atalhar a faca. Tomar ciência da preparação do redemoinho e deixar-me ir, agachada no seu vórtice, deixar-me ir para um não tempo, um não lugar, onde eu pudesse ver tudo com clareza, onde a vida fosse um cardápio, com todos os acontecimentos enroscados, esperando o toque dos meus dedos para serem.

Sorrio de mim mesma. O que tenho em mãos de verdade? Qual é de fato o cardápio que posso folhear, tocar com o dedo de unha recém-pintada,  flagrar o fio de um acontecimento e vê-lo desenrolar-se? É isso. Lá fora, tenho os ruídos da rua, e qualquer uma das minhas interpretações poderia desmentir a razão de todos eles.

Escrevo. Escrevo sobre o que não posso ter, como se cavasse um buraco, jogasse a terra para o lado e me visse a braços com nova terra, nova terra, sempre.Terra. É isso. Terra onde possa fixar alguma coisa, alguma coisa que floreça como planta. Alguma coisa que se alastre como texto, com começo, meio e final. E na hora mesma em que desejo esse caminho reto me revolto contra isso. A sensação de que foi sempre por um caminho reto que inventei minhas horas, meus minutos.Viver assim essa mentira organizada, em tons cor-de-rosa, viver essa contemplação de quase nenhuma cicatriz, somente pequenas manchas de acne, um tom de pele noticiando uma antiga e rebelde ferida na perna, um vinco na testa por causa de uma queda de infância maior que as outras.

Esse minuto é meu. Esse minuto é meu e de mais quase sete bilhões de pessoas no mundo. Eu podia não fazer nada com esse minuto. Podia ficar deitada esperando, escutando a crônica da rua. Podia deixar meus dedos inertes diante do cardápio aberto, deixar o garçon esperando por um minuto, num restaurante estrurgindo de gente. Esse minuto é meu e entretanto me deixo consumir por essa fome de saber o que cada um faz com ele. Essa fome de roer o nó de cada acontecimento desse minuto, deslindar seus fios, suas conexões, inventar um novo acontecer desordenado e fresco, como o cheiro das flores da minha infância, acontecendo no mato, indiferente às moscas e às fezes.

O telefone está tocando. Podia não atender. Podia ficar quieta esperando o silêncio da casa de novo. Podia, enquanto sopeso o som do seu trinado, ficar avaliando essa pergunta que trago aqui dentro. Por onde se começa uma história? Por onde se inicia um grito, por onde se interrompe a conversa amena, o falar descuidado, a raiva guardada em sílabas delicadas de mentira? As possibilidades são tantas, tantas, que essa pergunta se torna inútil.

- Alô? Digo com a boca cheia de incerteza, os pés do meu espírito resvalando para o minuto seguinte,fibras imprecisas do minuto que passou, esgarçando-se por entre as pequenas frestas do túnel da memória.



Escrito por Joana às 11h20
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