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Barrados no Braille | |||||||||||||||
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Todas as Vozes Na sala de terapia intensiva, somente os aparelhos é que vibram música opaca e fria, matemática dos humores e dos reflexos vitais. No rádio, na internet, no cd player, a um clique, um pressionar de botão, o deslizar do dedo sobre o painel do ipod,a voz ocupa sua faixa de onda, descobrindo-nos uma américa pulsante, alegre, dorida, forte, encantada, lutadora. E me chega à memória, como visita antiga, a lembrança da primeira vez em que escutei sua voz, numa tarde qualquer dos anos oitenta, a música invadindo todos os quartos da casa de estilo simples, plantada na periferia de João Pessoa, num pequeno canto da América ainda manchado pela colonização. Que promessas fazia aquela voz, a dizer-me num canto de todos, que “todo cambia”, por quais estranhos caminhos sonoros me trazia ela fotografias nunca feitas do meu pai, a erguer suas cercas, cantares da minha mãe, a socar na terra a semente de milho, e, no pulsar dorido do seu canto, o sangue vivo de tantas mortes desconhecidas? Nunca mais pude libertar-me do som daquela voz, que envolvia sua tristeza no luto de Alfonsina, indo buscar sons antigos de vento e de sal para seu acalanto. E perdi-me entre os sons da sua serenata para a terra, enquanto acariciava com ternura a areia da minha praia dos Seixas, a pensar na infância da terra dura do sertão. E deixei-me possuir pelos ventos da alma, e quis me desfazer na força da sua voz, a impelir-me para a dança, e fui noite amanhecida na liberdade daquele som e sonhei toda a beleza de uma América livre, tecida na obscuridade, no fogo, na eternidade. E voltei, para encontrar a tristeza de deixar as coisas simples, as coisas queridas, como a porta da frente da minha casa,fechando-se sobre o descuido da infância. E o meu coração, feito corredeira,bebe a agudeza e a gravidade de todas as vozes de Mercedes, e a minha dança descompassada busca todas as mãos, e sinto toda a pele da América em minha pele, e escuto quando ela diz, suavemente, que “toda sangre puede ser canción em el viento”. Na sala de terapia intensiva, somente os aparelhos é que vibram música opaca e fria, matemática dos humores e dos reflexos vitais. Todas as vozes de Mercedes Sosa, como trinados, como gemidos, como lânguidas carícias de amor, como bramidos de parto e de liberdade, como albergues para a tepidez das horas, como marulhar do rio e do mar, povoam para sempre o meu coração, povoam para sempre a América.
Escrito por Joana às 10h36 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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