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Pequena }Fortuna de Um Homem Pós-moderno

Uma homenagem brincalhona ao meu amigo Cláudio Paiva

 

Pediu-me que eu guardasse os seus pertences, e foi falar com um amigo. Ali, na mesa do bar, fiquei pensando que estava de posse de toda a fortuna de um homem pós-moderno: Um mp4, um isqueiro, uma carteira deCarlton, um celular.

Por conta própria, decidi fazer um tour pelas suas trilhas sonoras daquele dia. Cinema, ele é fissurado por cinema.Escutei um pedacinho da trilha de “um Drink no Inferno”,deixei-me ficar uns vinte segundos na escuta de Peter Greenaway,aterrisei na trilha de Arizona Dream,quando ele voltou, para arrecadar suas coisas.

Ficamos falando sobre livros, ele está lendo “A Pele da Cultura”, escrito pelo discípulo de McLuhan, Derrick de Kerckove.

A pele da cultura somos nós, diz-me ele, resumindo o livro de Kerckove.

}E intimamente fico pesando a sua fortuna cultural, amontoada num pequeno quadrado da mesa de plástico.

Digo-lhe, enquanto sorvo meu café, que de fato Derrick de Kerckove inventou um belo nome para o seu livro, entretanto,não posso deixar de pensar, por causa dessa metáfora da pele, numa espécie de esgarçamento, de bombardeio, guerra informativa a pulsar ininterruptamente nessa grande teia cibernético-tele-informática que ao mesmo tempo nos comprime e nos alastra.

Devagar, atira para o alto sua nuvem de fumaça e espreita por entre as unhas milagrosamente brancas. Prepara sua avalanche de palavras, cachos de frases perigosamente equilibrados no “eu penso”, e me diz:O texto da cltura, essa trama, essa rede, esse engurjitamento, imagem, som, silêncio. Trava para nova baforada e retoma: Eu penso que McLuan vivia no tempo das grandes máximas. “O meio é a mensagem”, e depois essa reelaboração dos seus revisionistas, “O meio é a massagem”...O tempo da gente é realmente o da bricolagem, da descostura, dos universos intervalares...

Quero falar, enfiar alguma sílaba interrogativa, mas ele prossegue. “veja bem, o tempo da gente é o do salto, do sobrevôo, como gosta de dizer Pierre Levy.

Penso em perguntar se estamos de fato no tempo quântico, se ultrapassamos a mera teoria, mas não há qualquer intervalo onde eu possa enfiar minha pergunta grande.   

“eu penso”... E entre mais uma chuparada no filtro do cigarro, arrasta aquela idéia dos universos que se tocam, mas não se comunicam. Penso na pequena crônica que eu mesma escrevera outro dia. Ele recupera Ciro Marcondes, Maffezoli,aporta novamente em Derrick de Kerckove.

Polifonia. Polimagia. Polilinguagia. É isso. Sorrimos. Ocorre-me, de repente, e eu pergunto: - E o mal-estar da civilização?

- Não passa de um belo título, para um livro antigo.

Recolhe sua pequena fortuna, me dá um beijo no alto da cabeça, e se vai, para a aula das dez.   

 

 



Escrito por Joana às 12h26
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