Barrados no Braille


A Fala do Vento



Essa minha mania de escutar as coisas, tentar decifrar suas falas. Hoje, é o vento que fala nessa minha crônica. Uma fala sem ritmo, estreptosa, soprada, salivando gotas de uma chuva que espera, pasmada na sua teia de nuvens, como no romance de Mia Couto. Palavras de vento, invadindo a casa, desforrando minha cama, enfronhando-se na minha delicada colcha de quadrados amarelos, desmarcando meu livro, empenando a persiana, desarticulando a precária ordem da minha sala, trazendo da rua, imprecisas sílabas de grãos de poeira, de pólen, um pequeno pedaço de papel, uma nota de compra onde as letras já quase desapareceram.

E por artes de alguma maquinaria escondida, de repente o vento silencia, como se cismasse, como se lesse na cozinha cósmica do universo, alguma receita mágica de força. E volta, o vento, quase gritando, que não consegue desenredar a água da chuva, que o mar, como um namorado ciumento, inventa desculpas para que ele, o vento, encrespe suas ondas, revire a areia da praia, descubra o lixo enterrado, a flor que murchou, a pequena concha escondida.

Revoltado, sem pedir licença,   nessa sua faina de desarrumar, eis que o vento despega da parede o quadro de Van Gogh, que tenta equilibrar-se nos trementes dedos da ventania, mas, escapole, estatela-se no piso da sala, estampido surpreendido pela nesga de sol, a inventariar seus mistérios. A chuva não virá. Incansável, o vento vai falar até que todas as vidraças se fechem, até que as árvores todas lhe emprestem suas folhas, como lenços de meio dia, para asua fúria.



Escrito por Joana às 12h26
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