Barrados no Braille


"A Alma do Osso"



E osso terá alma, perguntarão vocês. E eu lhes digo que vi “A alma do Osso”, lavada por uma solidão esculpida no útero da serra, estriada por fosforescências dos finais de tarde, acompanhada pelas sombras, invenção do fogo, nas achas de lenha, nas paredes da loca,nas garrafas de plástico cheias da água da chuva.

 

Somente ontem pude ir ao #Cineport, acompanhada pelas minhas duas amigas, Virgínia e Emília. Guiadas pela câmerade Cao Guimarães, empreendemos às cegas, aquela viagem até um povoado mineiro, ao encontro de um velho e dos seus 41 anos de vida abraçado à solidão, dentro de uma caverna.

 

Há duas belezas ali. A beleza do trabalho empreendido pelo cineasta, a delicadeza e o respeito com que fez uso da sua câmera, a profundidade com que tocou na alma daquele velho, cingido à sua montanha, vivendo na plenitude, cada um daqueles pequenos ou grandes gestos que compuseram a sinfonia dos seus 41 anos de solidão, feita do “demais” que habita dentro da gente, esse “demais” que só a cada um pertence, como a sua colcha de mistério, de #insondabilidade, palavra que deixo aqui, pairando como um pássaro obscuro, nesse final de parágrafo..

 

A segunda beleza é a própria poética do fato improvável: Um velho, uma caverna, os dias, a montanha, os pássaros, o fogo, a chuva, o amanhecer, palavras de uma longa crônica aberta, escritura invulgar de unhas endurecidas, rastros feitos da dureza da planta dos pés, pensamentos travestidos em imagens microscópicas, feito pássaros de um país exótico, e a arte, arte mesma do cantar do velho, violão e canção, duas incongruências entrelaçadas num ramalhete sonoro,a desafiar o vento, o silêncio da noite, a dureza da pedra.

 

Ficamos ali, agachadas junto daquele velho, escutando suas histórias de vivos e mortos, de fogo do purgatório. Vimos o saco onde ele guardava seus dólares, as latas para o feijão e o arroz, cobertas com sacos plásticos. Eu não senti medo, nem opressão. Sentia como se de algum modo, pudesse entrever a minha própria caverna íntima, um lugar onde eu pudesse apenas ser, tocada pelo silêncio, pelo cheiro do fogo, pelos sotaques sussurrados da solidão, essa fluida companheira que sempre está perto de nós.

 

Virgínia, minha querida amiga, cuidava da #audiodescrição, mas, naquela caverna pequena, eu pude saber da manhã acinzentada, raiada de chuva. No topo daquela montanha, pude pressentir os braços abertos do velho, na sua rústica ode à liberdade.

 

E quando nada mais tínhamos a esperar, a câmera de Cao Guimarães entremostra-se ao velho, desvenda para ele próprio, carente de espelhos, as rugas do seu rosto, o mapa da sua solidão, de 41 anos.            

 

A câmera de Cao Guimarães nos entrega a alma do osso, envelopada num sorriso de menino, lambuzado de satisfação, a lavar nossa própria alma.

 

Saímos da tenda e não quisemos mais nada, a não ser estarmos juntas, falando do velho. Que nos perdoassem as outras atrações do #Cineport, só queríamos ficar mais um pouco ali, na caverna do velho, alheadas do mundo cá de fora.

 

“A Alma do Osso”, documentário da trilogia da solidão de Cao Guimarães,exibido no Cineport-João Pessoa, sexta-feira, 23 de setembro, a partir das 18 hs.

 



Escrito por Joana às 12h56
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