Barrados no Braille


Cronica para meu Pai



Em homenagem ao seu aniversário (In Memoria)

São dezenove. Dezenove anos passados desde que você se foi. Dezenove anos, ora destendidos, feito um enorme bicho adormecido, dezenove anos empilhados uns sobre os outros, formando ângulos estranhos, no apertado túnel da memória.

Hoje penso nesses anos como se fossem uma longa cauda de estrada, serpenteada pela tropelia dos fatos da minha vida que não consigo reter. Uma longa cauda de estrada que percorri sozinha, sonhando com o som da sua voz, espreitando para algum desvão de tempo, surpreendida pela lembrança fresca do seu riso amanhecido, cristalino como a água do riacho.

Se o vento parasse de zunir nas frestas da minha vidraça, se a poeira aquietada germinasse o caminho por onde pisar, se a rua por milagre se aquietasse, se somente o pássaro dessa manhã pudesse cantar, eu soltaria meus cabelos, lavaria minhas mãos das obrigações de agora, e correria.

Correria por essa longa estrada de dezenove anos passados, os pés sapientes do solo de folhas e poeira amalgamadas, correria contra o sol de abril, na manhã silenciosa, saltaria para aquele 1 de maio de 1993, retendo o fôlego, retendo os batimentos do meu coração, espreitando para a casa, para o quintal, o coqueiro levemente curvado.

Encontraria você, o velho corpo levemente encostado à árvore, fitando a manhã, recolhendo nas mãos trêmulas, o calor do sol, revivendo o antigo gesto de embrulhar cigarros, sorriso fugaz por haver se esquecido de como picar o fumo, o velho canivete largado a esmo em algum canto da casa.

Meu coração cantaria de alegria, mas eu não perturbaria aquela manhã, feita somente para nós dois, aquela manhã, feita das contas de tantas outras manhãs encontradas,  o rosário completo da sua vida, 73 anos vividos, eu dentro deles, iluminada por aquela cumplicidade que sempre nos marcou, antiga, universal, como o brilho do sol a aquecer a terra.

Falaríamos baixo, minha voz temperada pelo grave da sua voz arrastada, sem pensarmos no amargo da sua solidão, sem pensarmos na estrada comprida que eu palmilharia, sem pensarm no décimo quinto dia do mês de maio, sombrio, seu corpo debilmente derreado sob o sofá da morte.

Como em tantas outras vezes, seus dedos trêmulos desenredariam meus cabelos e  eu saberia, da doçura dessa lembrança viva, me acompanhando na viagem de regresso, até o agora.

 



Escrito por Joana às 12h06
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