Barrados no Braille


Bem-te-vis



Escrever. Escrever devagar. Pensar em cada palavra, pesá-la no côncavo invisível do pensamento, deixa-la tombar, ao lado da sua vizinha, irmanadas na diferença, reféns para sempre, presas irremediáveis da esteira do sentido.

Escrever pelo puro prazer de escrever. Pintar o quadro da mulher sentada, sozinha no seu quarto, a aproveitar as últimas tonalidades da tarde de junho, a lembrança da chuva a tingir levemente o tempo, pássaros a  trinar contra o fremir do trânsito, na avenida principal.

Escrever, palavra sobre palavra, a dúvida, o silêncio, a saudade, a mágoa, a cascata dos bits na tela, escrever desse modo em que a música das teclas entoa o canto invulgar desse agora, sonata cibernética, contra o canto cristalino dos bem-te-vis.

Afagar em verdana, o alforje gasto de solidão, espreitar para dentro, recolher ínfimas quinquilharias. Um velho cheiro dos jardins da infância, o tom escarlate de cólera, na voz da minha mãe, enredado à lembrança do meu pai, em modo de quase prece, a tanger o gado para dentro do curral entardecido.

Lembranças desbotadas pelo tempo, vívidas agora, na tinta da escrita, não sendo senão lembranças, ordenadas em palavras.

Ah se eu pudesse. Se eu pudesse trazer para cá o aboio, o cheiro da chuva, os olhos da minha mãe, escrutinando o cume da serra. Mas só escuto os bem-te-vis, na tarde de junho. Só escuto os bem-te-vis. Os bem-te-vis, percuto de novo a pequena palavra, no teclado multimídia, a ver se ela esvoaça, transborda, transporta-se.



Escrito por Joana às 16h27
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